terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os quadris da dançarina


"Você sabe o que eu sou capaz de fazer, e sabe que eu não tenho medo de nada."
Acredito que essa foi a melhor frase que eu poderia dizer naquele momento. Nada se encaixaria melhor, nada faria com que eu me sentisse tão no controle da situação. E será que não estava? Para que estava tentando intimidar alguém que já estava na palma da minha mão?
Eu só consegui olhar para o teto (o lustre de vidro era incrivelmente brilhante) antes de bater os punhos sobre a mesa e baixar a cabeça como quem diz "você é realmente patético". Eu não sou o tipo de pessoa que se impressiona fácil, e muito menos o tipo que é comprada com um jantar em um restaurante de lustre brilhante. Eu não esqueceria nada por tão pouco. Eu não retiraria minhas palavras ríspidas e nem colaria seu vaso de porcelana por uma comida legal (entenda como quiser).
Na verdade, ele começou com um pedido de desculpas, eu não deveria ter sido tão indiferente, mas se eu tivesse pedido, ele ajoelharia, tiraria minhas sandálias e beijaria meus pés. Isso seria um pouco constrangedor, mas que mulher não ia querer um homem como aquele a seus pés?
Mas eu não pedi que ele se ajoelhasse, eu estava meio cansada do pedido de desculpas e logo entrei no ponto importante. "E então, ela é tão boa na cama quanto nas aulas de dança do ventre? Isto é, ela faz aquilo mesmo com os quadris?". E é claro que ele quase derramou toda a taça de vinho tinto no meu vestido. Surpresa! Eu nunca fui a boba que ele achou que eu fosse.
Meu Deus! Quem é tolo o suficiente para pensar que eu rasgaria as roupas dele no meio da noite só por causa de um olhar na sorveteria? Eu não me descontrolaria por tão pouco, é claro que não. Meus psicólogos sempre me definiram como uma pessoa calma e centrada. Será que ele realmente achou que eu explodiria por causa daquilo e só por isso estava me pedindo perdão? Era demais.
Minha pergunta não só não teve resposta, como vários tipos de negação sairam daquela boca. Se eu fosse uma mulher fraca, teria me deixado embebedar por aquela lábia maldita, aquele cabelo mal arrumado e o cheiro de gel pós-barba que ele estava usando. Tentador, não?
Para mim, a magia se quebrou quando um telefonema no meio da noite, coisa muito estranha, me sugeriu que procurasse um hotel do centro e perguntasse pela tal dançarina. Peguei o carro e fiquei esperando que alguém saísse de lá, e é claro que já havia percebido que o carro meu querido cônjuge estava estacionado próximo da entrada do prédio. E quem saiu de lá? Adivinhe.
Confesso que meu sangue que era frio, ferveu.
Não fiz nada, não fiquei brava, cheguei em casa e só tive vontade de beber.
No dia seguinte acordei, e não consegui mais esconder o jogo. Quebrei vasos, rasguei papéis, cortei roupas… parecia que algo havia me possuído. Explodi, explodi em silêncio. Não disse uma palavra.
Encontrei então um bilhete, era dele. Um bilhete deslavado, de uma cara de pau incrível, convidando para o tal jantar.
Decidi mostrar então que meus quadris talvez não se movessem tanto quanto os da dançarina, mas eram os quadris da mulher que o tinha nas mãos. Escolhi um vermelho fatal e subi no salto ( instinto femino de querem estar sensual para mostrar aos homens o que eles estão perdendo ). Não deixei que abrisse a porta do carro para que eu entrasse, fumei o caminho inteiro até o restaurante. Estava visivelmente irritada, mas não disse uma palavra sobre o incidente da noite passada.
E ali estávamos nós. Ele não respondeu minha pergunta, só tentou desviar minha atenção.
Chegou uma hora que eu, irritada, revoltada, não consegui esperar mais. Eu estava realmente anciosa para ver a reação dele quando eu disesse que esperei no carro enquanto ele fazia uma ‘aulinha’ no quarto da dançarina. Mas eu não aguento por muito tempo, não faz parte da minha natureza. Perguntei novamente, e ele começou com aquela mania ridícula de gaguejar quando está escondendo algo. Eu conhecia cada olhar diferente, cada palavra com tom de voz modificado, cada mania daquele homem. Eu sabia o quanto ele podia ser sínico.
‘ Tudo bem, vamos facilitar as coisas? ‘ peguei um cigarro e olhei firme, ‘ porque você não me conta como conseguiu ser tão canalha? Estou ansiosíssima para saber. ‘
Não houve nada além de silêncio e uma cabeça baixa.
O gerente do restaurante veio me pedir, por favor, que apagasse o cigarro, que era expressamente proibido fumar ali.
‘ Não será necessário. Já estou de saída. ‘
Levantei, por incrível que pareça, não vacilei, mesmo depois das cinco taças de vinho, fiquei firme e coloquei o dinheiro sobre a mesa.
‘ Está aqui a minha parte. A partir de hoje, você não me deve mais cortesias. ‘