sexta-feira, 20 de maio de 2016
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Esse texto é como um divisor de águas para mim. É uma mudança drástica na minha vida, na forma como eu me vejo, na forma como vejo as outras pessoas. Posso dizer que talvez seja o manifesto da minha auto estima e da minha libertação.
Hoje acordei e quando olhei no espelho vi que algo muito grande tinha mudado. Pela primeira vez (ou primeira vez em que me dei conta desse sentimento novo) me olhei com o carinho e a admiração que lia muito a respeito por todos esses anos: me amei, de verdade. Sorri para o meu reflexo.
Talvez essa seja uma situação rotineira para as pessoas, mas para mim é completamente novo. Por anos pratiquei repetitivamente o ato de me julgar, condenar e cobrar por causa do meu corpo, do meu cabelo, dos meus pêlos e até (olha só!) da minha estatura.
Anos me flagelando da pior forma possível: cultivando um ódio enorme em relação a mim.
Não sei definir o momento exato em isso começou, mas consigo, no fundo da memória, encontrar os fragmentos que culminaram nessa repulsa do próprio reflexo, fuga das fotos em que eu aparecia de corpo inteiro, medo que vissem o que eu via no espelho. Me sentia um monstro e não conseguia fugir disso.
Daí surgiram os problemas a respeito do meu peso. Mas não eram problemas com o peso. Eram problemas com a forma que me sentia, essa preocupação constante em esconder, em deixar de fazer coisas que todas as minhas amigas faziam (festas, piscina, namoradinhos) por vergonha. Vergonha do meu corpo, vergonha de parecer ridícula, vergonha de ficar o tempo todo pensando em como eu parecia dentro de um biquíni.
Não é surpreendente que esse quadro tenha me levado a um círculo vicioso de ódio. Eu odiava meu corpo, odiava comida, me odiava por não conseguir parar de comer. Queria emagrecer dez quilos em vinte e quatro horas. Me escondia para não comer perto de outras pessoas, tinha vergonha de ser vista com comida e que os outros me julgassem por continuar comendo com "esse corpo imenso". Estava tão sobrecarregada que só queria botar tudo para fora: lágrimas, a comida que eu ingeria, ódio. Me arranhava e me cortava sempre que me sentia cheia: de choro, de alimento, de auto destruição.
O tempo passou, tive ajuda para entender que colocar em risco minha saúde não me ajudaria no processo de me aceitar. Mas aceitar o quê?
Aceitar sempre me soa como um certo conformismo. Eu não precisava "me conformar" com meu corpo, não precisava "engolir" meu corpo, não era isso. Às duras penas também entendi, depois de muito tempo, que também não se trata de mudar meu corpo, me adequar a um padrão. O que eu precisava era aprender a me respeitar. Gostar de mim e me sentir livre.
O contato com o feminismo foi essencial nesse ponto. Aprendi mais sobre o machismo presente na ideia de um corpo ideal que a mídia vende, sobre a indústria que se beneficia da nossa baixa auto estima. Li sobre garotas empoderadas, com corpo real, com pêlos (e orgulho deles!) e um grande foda-se para a sociedade que insiste em eleger musas que nada tem a ver com a vida cotidiana e com mulheres de verdade, estipulando um padrão cruel e inalcançável de capas de revista.
É preciso contar mais um adendo. Fiz uma mamoplastia redutora que diminuiu drásticamente o tamanho das minhas mamas. Outro divisor de águas na minha vida.
Desde os meus 15 anos, idade em que meu corpo passou a se desenvolver mais e engordei muito devido à depressão pós morte da minha mãe, meus seios cresceram absurdamente. Passei de uma adolescente despreocupada a uma garota com seios tamanho 50 e cheia de dores nas costas. Meu corpo se tornou uma máquina cruel que me machucava, cortava meus ombros com o peso, entortava minha coluna e me fazia passar horas deitada no chão para aliviar um pouco de tudo que eu sentia.
Diminuir meus seios me fez ficar em paz de um jeito que nunca pensei ser possível: finalmente não existe mais dor, nada em mim produz um sofrimento físico real.
Hoje vejo que uma coisa sempre esteve atrelada à outra. A dor que meus seios causavam aumentava o ódio que sentia do meu corpo, e, por me amar nenhum pouco, odiava ainda mais os seios. Círculo vicioso de ódio, de novo.
Todo esse longo relato foi necessário para concluir aqui o que eu aprendi em toda essa trajetória e "em que pé" me encontro agora: me encontrei, e acho que nenhuma palavra é tão boa quanto "encontro" para definir como me sinto agora.
Sempre fui muito hipócrita quando o assunto é auto estima. Militei muito sobre "meu corpo, minhas regras" no âmbito do amor próprio, sobre a tal "aceitação" (quando achava que aceitar era o mais importava) e dei muito conselho de como ser feliz consigo mesma enquanto vomitava meu almoço. Todo esse caminho, hoje consigo reconhecer, foram parte do meu "encontro", do meu despertar. Desse abrir de olhos que é tão lindo e que me faz querer gritar para todas as pessoas que ninguém precisa eleger um corpo ideal, ninguém precisa olhar para um modelo magro de ser humano e, por isso, odiar todos os outros. Ninguém precisa de outra que inspiração que venha de dentro de si.
Achar um tipo de corpo bacana não anula o fato de que todos os outros são bacanas também. Se pudesse voltar atrás, conversar com a Maria Olivia de dezesseis anos que buscava pesar quarenta quilos, eu diria: você é linda. Linda com as particularidades, com um peito imenso que te me machuca mas que não deve servir com mais um motivo para se odiar. Linda com os muitos pêlos do corpo que não apareceram nas revistas e nem nas amigas da escola.
Eu não tenho um mapa de como encontrei esse lugar onde toda pessoa deveria viver em total sintonia com seu corpo, com toda a liberdade de se amar. Não posso dar o caminho das pedras. Mas posso sonhar que da mesma forma que hoje gostaria de falar com a Maria Olivia de dezesseis anos, possa continuar com a de vinte e quatro, com a quarenta e com a de sessenta. Em um mundo tão cheio de possibilidades, com tanta vida, sofrer aprisionada em um corpo odiado foi a pior restrição que me poderia ser imposta. Hoje, vendo a Maria Olivia de dezesseis anos, eu só desejaria a ela a liberdade e o alívio que é me amar.
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