Faz tempo tempo que as coisas aconteceram. Faz tanto tempo e parece que foi tão rápido.
Eu não tenho certeza se estou preparada para falar de tudo isso de novo. Não sei se está na hora de revirar o baú novamente, procurando por algum detalhe que passou batido pelos meus olhos ansiosos, cheios de vontade de ver uma cena bonita, daquelas que eu colecionei com tanto cuidado. Talvez não seja, talvez eu só esteja tentando encher a minha vida de algo que valeu a pena, em algum momento, procurando uma inspiração para seguir em busca de algo parecido, ou diferente na medida certa pra me fazer sentir alguma coisa de novo.
Minhas tentativas de avaliar tudo, inúmeras vezes, incansávelmente vem dessa minha obsessão em manter viva uma coisa que só pulsa em mim, com vigor algumas vezes, mas na maior parte do tempo, uma veia minha lutando para sobreviver, quase que gritando por ajuda.
Pode ser que isso aconteça porque foi o único momento da minha vida, até agora, em que me senti envolta por uma coisa tão mágica, tão minha, que saía de mim, para encontrar em outra pessoa... Mas o que eu sentia não vem ao caso. Nisso eu não preciso mexer, eu sei bem que o que eu sentia não está sendo posto à prova.
Quero revirar isso tudo de novo pra saber em qual momento eu me perdi, e fiquei imersa nisso em que me encontro até hoje. Em que tudo me afeta, me atinge, mas nada me tira dessa. Em qual momento perdi a total confiança de que podia sentir essa mágica toda de novo. Pode ser doloroso, mas a cada dia, a cada mês, eu tento revisitar tudo o que perdi para sentir de uma forma mais madura, saber lidar com tudo de forma que nada morra, ao contrário, que eu saiba lidar.
De fato, eu amadureci muito. Amadureci ao ponto de não precisar revisitar o passado (será?) para ter certeza de sentimentos que ficaram lá, a ponto de me adaptar com o fato de que sim, alguma coisa ficou lá. Mas que isso é fato, eu não posso voltar para lá e recuperar alguma coisa, até porque isso não envolve só o que eu sinto, só o que eu espero das coisas, da vida.
É difícil demais lidar com as mudanças. É difícil saber administrar um tempo que era dedicado com outra pessoa, pensando em outra pessoa. É realmente muito difícil pensar em mim, mesmo depois de tanto tempo. Fatores acumulados que me tornaram uma pessoa tão nostálgica, tão presa aos anos que passaram. Quase que no mundo a lua constantemente, revisitando lugares onde estivemos, pessoas com as quais falamos, e até as que falavam de nós.
Quase que certamente, na semana que vem, eu terei vontade de revisitar tudo isso de novo. Vou procurar um detalhe esquecido que faça de tudo aquilo uma novidade, a fim de manter aquela veia pulsando, mesmo sabendo que ela me prende tanto à minha metade que se afundou com os planos que foram feitos a toa... Talvez eu me revisite e chegue à uma conclusão, algo desperte e eu consiga falar de maneira madura e compreensível que não vivo mais à margem de mim. Que consegui me doar à vida real e ao agora. Que consegui cuidar de mim e de outra pessoa, nova, que não pertence ao passado saturado de um nome só, escrito em negrito em mim.
Quem sabe eu saia da margem, me canse desse baú, que devia estar empoeirado e esquecido, e mergulhe de cabeça no que eu preciso agora: viver. Sem sombras, sem fantasmas e sem aquele sonho. Porque aquele sonho já foi.
terça-feira, 29 de maio de 2012
E então... Amar.
Hoje
quando estava entediada olhando ao meu redor e pensando na corda bamba
na qual eu me encontro, percebi algo que não via nas outras pessoas.
O
pássaro bicolor que pousou no meu ombro talvez seja o sinal que alguém
enviou para que eu soubesse que eu fui a escolhida. Bem, não há mais
ninguém com esse mesmo pássaro pesado e barulhento por aqui, talvez eu
devesse me desvencilhar dele, estou tombando para o lado e isso pode me
fazer cair. Mas esse pássaro é meu sinal, é uma marca, para que Aquele,
quem sabe, possa chegar a vir de repente e buscar a pessoa escolhida. Eu
fui a escolhida, estou aqui! Veja meu pássaro!
Coincidentemente,
no mesmo dia que me dei conta do enorme peso que essa ave maldita
exercia no meu ombro, também percebi que havia caído um cadeado do meu
colar. O colar que eu usava para simbolizar que duas almas totalmente
distintas poderiam estar ligadas a uma mesma chave, mas depois que eu
acordei de um sonho lindo, procurei, freneticamente, o cadeado perdido.
Não encontrei. Isso me sugere que o cadeado sumiu por ter encontrado uma
outra chave, a chave que o abria mais facilmente que a que tinha.
Continuo com o colar. Com a chave. Com o cadeado. Um só cadeado, um
cadeado solitário.
Se
eu olhar para cima, além de perder o equilíbrio, eu sei que vou ver o
enorme número de estrelas que eu já desisti de contar, e tenho certeza
que não encontrarei minhas respostas apenas pelo ato de tombar a minha
cabeça e sentir meu sangue se concentrar todo me fazendo ficar vermelha.
A vermelhidão do meu rosto pode dizer tantas coisas, é algo tão raro,
que eu não estou disposta a ficar vermelha por um motivo tão banal a
ponto de acabar com a magia da face corada, tão misteriosa. Não olharei
para o céu, já sei o que existe lá, talvez eu me sinta triste ao ver o
que vejo todas as noites, exatamente igual.
Agora
então me ocorreu a idéia de ao invés de olhar para cima, olhar para
baixo. Abaixo de mim há uma corda, uma corda marcada por quatro linhas
amarelas, como se indicassem a porcentagem da corda que eu já consegui
passar, só para constar, acabo de verificar e não cheguei aos vinte e
cinco ainda, há muito caminho pela frente. Mas novamente eu digo, não
olharei, é certo demais o que está abaixo de mim, eu sei que nem um
milagre faria que a imensidão dos espinhos da roseira se transformasse
em uma cama limpa com pétalas de rosa para que minha queda fosse bela ao
invés de trágica, assim como só um milagre faria com que, ao olhar para
o peito, eu encontrasse ali, preso e seguro o cadeado perdido do meu
colar da vida, o cadeado que acabaria com a solidão da chave que não
consegue viver para um só. É melhor não olhar.
Do
meu lado esquerdo há o pássaro. Meu sinal. Minha marca. E eu espero
ansiosamente o dia em que Ele chegará, procurará atenciosamente por toda
a sala e verá o pássaro, esplendoroso a fazer barulho, indicando sua
presença em meu ombro machucado. Então Ele virá ao meu encontro e dirá
com palavras doces ”É você, não poderia ser outra, venha comigo e
desfrute de sua recompensa por suportar a dor do pássaro” e eu me
levantarei, mas logo deitarei, deixando a matéria morta no chão e
receberei, enfim, a luz prometida. Pode ser que junto com as palavras
doces, Ele traga ainda não meu cadeado perdido, mas um molho de chaves e
entregue em minhas mãos, me dando a responsabilidade de abrir todos os
cadeados do mundo, libertar todo o amor possível. Viver trabalhando com o
amor, viver em meio a amor. Amar.
Nesse
dia, eu não estarei mais na corda bamba, poderei olhar para todas as
direções possíveis. Estarei bem. O pássaro seguirá seu rumo a procura de
um novo pouso, e nada mais será um peso. Meus cadeados estarão
perdidos, sim, mas em troca, todas as chaves em minhas mãos. E então…
Amar.
bege, margaridas no cabelo.
Entrei
no carro e novamente você não disse nada, só me olhou com aqueles olhos
curiosos de quem espera alguma palavra. Olhei para você e você olhava
para mim. Momento perfeito, romântico. Não.
Vou
dizendo desde o início que tenho em meu poder um copo e que não estou
muito preocupada com o fato de que logo seu conteúdo pode estar inteiro
virado em sua roupa. Para ser bem sincera, eu adoraria isso. Agora, me
sinto em uma música da Amy Winehouse em sua relação conturbada com os
homens, quem sabe eu possa te explicar como é se sentir assim.
Me
peguei ontem vendo as fotos de quando éramos apenas aqueles loucos que
não queriam nada mais que diversão. Logo, é inevitável, eu me pergunto:
Porque você se tornou isso, tão diferente? Você não é mais aquele cara
com quem eu brindo a vida. Você não é mais aquele que me deseja até
quando falo alto e ri dos meus escândalos. Será que nós caímos na
rotina? Depois das fotos, estava chorando no chão da cozinha de saudade
de você, mesmo estando na sua frente agora, eu sinto saudade de você.
Você
se lembra de quando nós combinamos de nos casar, só você aceitaria
eternamente os risos fora de hora, altas doses vida injetáveis em sua
veia, noitadas nas ruas da cidade. Hoje te vejo me recriminando e aquele
bar velho onde você me conheceu dançando como louca não é mais ambiente
para mim, concorda querido?
Não
há mais ninguém entre a gente. Seu apartamento é em frente ao meu e eu
não consigo mais apertar a campainha e não te ver como uma freira
querendo me converter a todo o momento. Quem sabe se você não disesse a
todo momento que eu sou alguém diferente do que você conheceu?! Será que
você está crescendo e não me quer mais como eu era antes? Eu te vejo
careta mesmo com suas camisetas modernas.
Ainda
estava chorando na cozinha por alguém que estava me repugnando até
então quando parei para pensar no quanto essa cena estava deprimente,
que tudo gira em torno do meu umbigo e que ninguém, muito menos ele,
poderia me fazer chorar no chão da cozinha. Tão deprimente. Deitada ali,
encontrei embaixo do fogão as chaves no apartamento da frente, que na
nossa última briga, foi lançada aos ares e eu nunca mais encontrara.
Com
as chaves e um lingerie nova, fui a sua casa decidida a te fazer voltar
ao normal. O que estava acontecendo? Confesso que prefiro roupas
íntimas mais confortáveis, mas o que não se faz por um amor?
Nada na sala, nada na cozinha, nada no quarto, nada no banheiro. Onde estava? Rua? Bar? Não, você agora é um santo.
Sua
condição faz a minha, não estou nessa com você. Nós nos casaríamos, mas
acho que não quero mais dividir o mesmo teto com alguém que a qualquer
momento me exorcizaria com o olhar. Sempre foi minha a última palavra.
Como eu nunca percebi que você não passava de um boneco manipulável que
estava empolgado com a minha vida de aventuras, na qual você cansou de
se arriscar?!
Na
rua, qualquer mulher encontra inúmeras possibilidades para um fim de
noite, eu estava um pouco desconfortável, mas o que é o desconforto
perto daquele misto de querer e não querer saber onde você estava?
Ninguém some nessa cidade, a menos que se queira. Você ainda é o tipo de
cara que gosta de sumir?
Mais
um copo e você novamente me encontra do jeito que nós nos conhecemos,
como uma louca, rindo e falando besteiras. Mas seu olhar é outro, não
vejo um interesse mas um olhar de pena. Você realmente está se sentindo
bem com isso.
Você sumiu de novo.
Sumiu, de vista e de dentro de mim. O que está acontecendo?
O
que se passou depois eu já não lembro direito. Mas eu sei que não foi
uma idéia fácil de colocar na cabeça que você estava sentado do lado de
alguém que deveria ser eu. O que você consegue ver em alguém como ela? É
divertido passar noites me claro falando do novo emprego dela enquanto
eu jogo sobre você os olhares você costumava dizer que eram
irresistíveis?
Eu
ainda estou com a minha nova lingerie e estou vendo o quanto o banco do
seu carro é macio, ela está com uma lingerie nova também? Foi ela quem
te converteu?
Eu
ainda tenho um copo na minha mão, e você continua me olhando com aquele
olhar de quem não entende nada. Você nunca entendeu nada.
Não responde
nada do que eu pergunto. Bom, é melhor entregar as chaves do seu
apartamento, não quero encontrá-las embaixo o meu fogão quando estiver
deitada pensando no quanto você é tolo.
Eu beberia agora, o resto do meu sagrado líquido do meu copo se ninguém tivesse batido no vidro do carro. Abri o vidro.
Sem decotes, sem salto, sem cabelo arrumado, sem maquiagem, sem nada. É ela?
‘Quem é ela?’
Sem
tempo de responder. Meio que com uma idéia de fazer parecer um
acidente, meu copo voou na blusinha branca da ‘moça’ que ficou lavada.
Como
eu imaginava, com a transparência da blusa, só pude ver um grande sutiã
bege sem atrativos. Como se não bastasse, recebi um olhar fulminante,
mas desculpa amiga, você não vai conseguir fazer comigo o que fez com
aquele que eu achava que me amava e que talvez não guarde mais as cópias
das fotos que ainda estão no chão da cozinha.
A propósito, tire da sua carteira a imagem de nós dois. Substitua pelo seu novo amor com margaridas no cabelo.
e se fosse hoje?
Se eu morresse hoje…
Se
acontecesse nesse momento, eu saberia que o mundo me acolheu bem
independente do que eu já tenha dito sobre ele, e que o mundo não é
culpado por tudo o que já me machucou, mas sim outras pessoas que também
tentam culpá-lo. Eu saberia que ‘o mundo’ é a denominação mais fácil
para quem busca não aceitar que perdeu suas próprias oportunidades.
Se
eu moresse hoje, eu não teria medo de me jogar do precipício da minha
própria alma. Não hesitaria em levantar pela última vez e correr em meio
aos girassóis, não me perderia nas mágoas do meu ego, não caberia a mim
decidir e pensar no futuro, aguardaria o fim deitada sob uma velha
árvore e murmuraria palavras doces enquanto dentro de mim nossa música
me embalaria.
Se
hoje de fato fosse o dia, estaria certa de que mesmo sabendo que
pessoas me enganaram, tudo isso serviu para que me tornasse hoje a
pessoa que sou agora. Que mesmo com as pequenas e grandes mentiras, tudo
valeu a pena pelo aprendizado incrível que me foi oferecido, mesmo com a
dor da enganação. Saberia que cada lágrima derramada por causa dos
outros foram alguns milímetros de sentimento saindo de mim através dos
olhos, que cada noite fria com a cabeça girando constitui uma etapa
obrigatória no processo de me tornar o que sou nesse momento.
Se
acontecesse nesse segundo, gritaria alto o quanto me sinto bem por ter
experimentado as coisas mais lindas até então, o quanto eu sou grata por
cada pedra que eu pude retirar do meu caminho com as próprias mãos… por
ter conhecido um olhar sincero após um beijo, por poder dizer que tive
do meu lado pessoas mágicas, e outras nem tanto, que me ajudaram a
encontrar as peças perdidas dos meus quebra-cabeças. Eu levaria comigo
para sempre aquele cheiro de chuva, o perfume de pé de pitanga do
quintal, a lembrança dos anjos que passaram por mim e deixaram rastros
por todo meu ser.
Se
eu moresse hoje, não duvidaria das palavras de quem provava, a cada
dia, que valia a pena. Não aceitaria fácil a desistência, faria
inesquecível cada segundo de contemplação da vida, sem me perder nos
pensamentos pessimistas que costumavam impregnar minha mente. Renovaria
cada sorriso na presença daqueles que precisavam me ver sorrindo para
manter viva a chama da esperança.
Teria
mostrado par todos que era possível amar até mesmo aqueles que me
renderam choros de raiva, que era possível fazer da vida algo bem mais
amável. Em falar em amável…
Faria
as mais belas juras de amor em frente ao espelho para entender que é
impossível amar alguém sem se amar primeiro. Não sacrificaria meu
castelo de cartas do coração por caprichos de mulher, não teria dado a
cara à tapa sem saber o real motivo que me levava a fazer isso.
Esqueceria as dores de desilusão antes de dar minha mão a outra pessoa.
Esperaria o tempo necessário o som da voz de quem me fazia bem, porque a
maior prova de amor é doar seus dias a quem precisa de tempo.
Aproveitaria
as gotas do meu cabelo na chuva para lavar as feridas que nunca
cicatrizaram. Diria até o fim da minha voz que o amor que estava dentro
de mim não era o maior do mundo, mas o mais sincero, total entrega do
meu ser que eu desisti de censurar. Cantaria e dançaria ao som da nossa
música até meu corpo se sentir exausto demais, e deitar no chão sonhando
com a recompensa de um sentimento puro.
Deixaria
de lado minhas falhas humanas e buscaria virtudes divinas escondidas em
pontos remotos de mim só para te dar o meu melhor. Sacrificaria meu
corpo, minhas palavras, meus sentidos, para tentar te mostrar que ainda
vale a pena lutar pelo que é nosso que não há nada mais contraditório
que amar e não estar perto, sentir junto o que foi nos dado, não
desfrutar da essência se Deus em nós.
Diria,
incansavelmente, que o que eu queria, e sempre quis, desde o início,
era você ao meu lado mesmo que por alguns segundos, segundos de total
entrega de sentimentos, te queria comigo até quando seu corpo se
aventurava em outros corpos. Te diria, mesmo sem coragem, que estaria do
seu lado como um vento de lembrança, que te amaria mesmo quando
dissesse meu nome envolto em esquecimento e frieza.
Se
hoje fosse meu dia, entregaria minha a alma a todos que me dirigissem
olhares, e assim, eternizar meu ser em cada pessoa amada por mim em
vida. Abaixaria minha cabeça e esperaria, com calma e ligeira ansiedade
pelo momento em que a vista escurece e nada pode nos manter aqui.
Aguardaria, sem alarde, o mais puro sentido da morte, o estar morrendo.
Atenderia o chamado de Deus, e deixaria aqui a imagem de alguém que
amou, amou mais que tudo a vida, alguém que partiria com dúvidas, mas
com a certeza de que cada suspiro valeu a pena e que a coisa mais
incrível que poderia ter ocorrido na minha existência toda, foi perceber
que até as dores, as piores dores, trazem consigo uma carga de
benfeitorias para aquele as enfrenta de cabeça erguida.
Se
eu moresse hoje… Eu seria um vento de lembrança. O vento de lembrança
que se renova a cada noite em claro. Um vento de lembrança e esperança.
Se eu moresse hoje.
desconfiança repentina.
A verdade é que eu não sei se as pessoas que dizem se preocupar
estão de fato tão preocupadas. Quantos ‘eu te amo’ eu já ouvi até aqui?
Quantas vezes já senti esses ‘eu te amo’ realmente presentes nessas
frases?
Quantas das pessoas que eu conheço estariam dispostas a deixar de
lado os próprios interesses para me dar a mão quando precisasse? Quantos
‘por favor’ seriam necessários para que alguém pudesse começar a pensar
em me ajudar?
Palavras. Palavras. Mais palavras. Hoje conheço alguém e daqui
alguns minutos terei ganho uma declaração de amor de quem se propõe a
ser meu melhor amigo eterno. E até quando vale a pena colecionar
juramentos de amizade, promessas de lealdade se nada disso tem um fundo
de verdade? Um tipo de ”recheio” sentimental?
Se alguém me machucasse hoje, eu relevaria tudo só pelo sentimento que dizem ter por mim?
Calma. Eu acho que isso é um ponto delicado demais para mim.
Desconfiar da minha capacidade de acreditar e relevar é o mesmo que
duvidar das palavras daqueles que estão ao meu lado. Duvidar que tudo o
que foi dito num dia, no outro não vale uma moeda de um centavo. Duvidar
que meus amigos podem me apunhalar pelas costas.
E quanto a esse jeito superficial das pessoas? Esse modo da boca
pra fora de dizer que alguém é muito especial, sem conhecer de verdade o
sentido da palavra especial? Sobre ferir sentimentos, e depois curar
tudo com simples ”desculpas”. DESCULPA parece uma palavra mágica que
amolece corações. Mas devia ser assim? Está errada a pessoa ue não dá a
mínima para desculpas?
Ouvi dizer que se conhece realmente alguém quando esta pessoa está
com você nas mil maravilhas e nos piores momentos. Acredito que a pessoa
que me disse isso e continua dizendo pelos quatro cantos não levava em
consideração que hoje é cão come cão e que cada um defende seus
interesses. amigos estão cheios por aí, mas cada um com seu próprio
interesse acima de tudo. Quantos de seus amigos dariam a vida por você?
E se de repente eu acordasse e me visse sozinha, sem ninguém por
perto, ninguém para me dar a mão, ninguém para estar comigo?! Se eu
percebesse que não há mais ninguém para me dizer onde ir, com quem ir,
me entretendo, me mantendo com um sorriso no rosto… mas essas pessoas
ficariam comigo sempre, me dariam a mão se não houvessem interesses
nisso tudo?
Hoje eu não me sinto confusa tanto quanto antes. De repente o
interesse alheio me pareceu tão claro… Vale a pena confiar? Continuar
ali, do lado de alguém que te acorrenta com um simples ‘eu te amo’?
Será?
A mesma pessoa que tantas vezes já me contou sobre confiança e
sobre amizade também me disse que a pessoa verdadeiramente livre é
aquela que pode se desvencilhar daquilo que convém à sua felcidade. E se
você descobrisse que todos à sua volta não estão preocupados como
deveriam estar? Que os interesses falam mais alto e a sua fonte do que
tem a oferecer está secando?!
é isso
Será que isso está tão longe de mim mesmo? Sempre que me pergunto se posso sair daqui, me pergunto se vale a pena desistir. Tempestades em copos d’água nunca fizeram meu tipo e o que sinto eu não classifico com bobagem. Quem sabe eu escreva um romance daqui a pouco sobre o quanto eu desejo sair da minha vida para entrar na de outra pessoa.
Escala de Cinza
Todo mundo um dia vai escrever sobre branco. O branco que dá quando
não há mais nada para escrever…quando o que resta é suspirar e olhar
para a tela roxa sem conseguir colocar nada de criativo para fora. Todo
mundo um dia vai pensar branco. Algumas pessoas só pensam branco. E
agora eu agradeço por pensar colorido ou em escala de cinza a maior
parte do mundo.
Eu poderia escrever sobre muita coisa, o universo de assuntos que
eu gosto de falar é muito amplo, mas provavelmente não interessaria
tanto quanto as crises de desconfiança e incredulidade na existência de
algumas coisas… ou interessaria?! Parece-me que se eu escrever sobre
minhas dúvidas freqüentes e minha vontade constante de desaparecer do
mapa só faz com que as dúvidas se multipliquem e a vontade de sumir… nem
se fala.
Acho fácil também discutir por páginas e páginas daqui sobre a
futilidade das pessoas, sobre essa mania ridícula de colocar o material
sempre a frente do sentimental, sobre essa busca infinita por um poder
que não traz poder nenhum. Falar sobre os cegos desse mundo, aqueles
cegos de alma, os cegos que podem mas não enxergam.
É fácil escolher um tema e fazer um conto de fadas, um drama que
faça quem lê se emocionar… mas eu nunca vi alguém escrever um romance
sem nunca ter tido contato com alguma forma de amor, do mesmo modo que
ninguém faz um documentário sem uma pesquisa de campo. Não, isso não é
um momento "não posso falar de amor porque não o sinto, coiada de mim",
longe disso, é um tipo de explicação fria e seca do porque escrever tem
sido tão difícil. O como é tão complicado fazer alguém pensar em algo se
eu mesma estou com a cabeça tão fazia… tão branca.
Quem sabe daqui um dia, dois dias, algumas semanas, eu pense em
algo digno de ser escrito e principalmente digno de ser lido, ninguém
permanece tanto tempo sem impulsos de fazer aquilo que gosta. Ou
permanece? Quem sabe um dia eu esteja aqui escrevendo tanto, sendo capaz
de cansar quem lê com histórias mirabolantes e aventuras incríveis.
Quem sabe minha pesquisa de campo esteja mais próxima do que eu imagino e
quem sabe ainda algo de muito grandioso esteja para acontecer que eu
tenha que guardar minhas melhores palavras para descrever algo que está
por vir. Quem sabe eu não tenha como escrever… Ninguém sabe.
Por enquanto minha escala cinza da vida não tem distraído uns
minutos de alguém e meus momentos coloridos são de tal raridade que
quando é anunciando já há uma outra luz mais forte ofuscando a minha.
Mas também pode ser que em meio a tantas pessoas que copiam o colorido
de alguém, ou a minha escala em cinza seja o diferencial que eu preciso
para me ver…um ponto branco diante do espelho. Talvez as dúvidas se
multipliquem ou sejam divididas, mas isso só o tempo dirá. O tempo e a
minha vontade de encontrar respostas, ou a minha vontade de sumir me
leve para onde eu sempre quis estar e sem o menos sacrifício eu ainda
diga que sumir é o mesmo que dormir sem poder acordar nunca.
sometimes...
E quando o que vem de dentro é mais forte que qualquer coisa que já possa ter sido visto por fora?
São os dias escuros, nublados… eu sei que essa é a única
explicação. A justificativa da terra molhada, do cheiro úmido e de cada
nuvem pesada e negra como a espessa névoa dentro de mim. É o que
conforta. Estações vêm e vão e acabam trazendo para a minha dor a trégua
de um dia ensolarado. É o fardo pesado para quem se julga frágil, e é a
surpresa de uma vitória em meio a trovoadas. É iluminado e é sombrio.
Contraditório. As vezes.
As vezes é a pretensão dos seres humanos, as vezes é o orgulho
desenfreado e as vezes é a cobiça cega… e as vezes sou eu. As vezes sou
só eu contando uma história sem remediações para meu reflexo na frente
do espelho. Talvez seja mais brando do que eu julgo, talvez seja a
tragédia perfeita para alguém já tão acostumado com tragédias
inventadas.
A verdade é que todo mundo sempre adora uma historinha de amor para
acalmar o coração, todo mundo gosta de um drama barato para desviar a
atenção dos próprios lixos cotidianos, todo mundo quer se enganar. E eu
não julgo… eu desejo me enganar as vezes. A mentira, a ilusão, o engano,
ou como decidir chamar isso… acalma o coração, faz as dores ficarem
suaves. Pelo menos até o anoitecer. O anoitecer é trevas… ou não.
A dor é dor. A ilusão é só uma ilusão que a gente a cria para
desviar a atenção, pode ser um misto de orgulho e indiferença para não
lidar com aquilo que é real demais a ponto de causar náuseas. E embora
minha reflexão sobre isso seja clara demais, e eu saiba que a dor da
realidade depois da ilusão barata criada é o chão, de repente eu me
perco no meu labirinto de novo e esqueço de toda a coisa bonita que é
ver tudo claro.
Bem claro.
As vezes…
.
Venda
o seu corte de cabelo. Venda seu olhar. Venda seu jeito de movimentar
as mãos enquanto fala. Venda suas palavras e expressões viciadas. Venda o
modo como você anda e se veste. Venda o tipo de bom humor que você
costuma ter em dias improváveis. Venda tudo o que você tem. Se venda.
Venda
o mundo ao seu redor e sinta-se comprado também. Sinta-se livre do
fardo interminável de administrar sua própria vida e suas próprias
características que foram moldadas a você. Sinta a brisa tocando sua
carcaça vazia enquanto o indivíduo ao lado se transforma um reflexo do
seu eu anterior, enquanto ele chora as angústias que você chorava antes,
enquanto ele vive a essência na qual você se inebriava antes.
Experimente dizer a si mesmo que não é seu, agir a partir dos outros, não fazer nada por si próprio.
Experimente
adotar características que não são suas, adotar o amor superficial
alheio, ficar impregnado de alguém. Imagine um mundo de pessoas
vendidas, como se pedaços de cada um estivessem espalhados por aí,
pedaços de personalidade e sorrisos e faces e olhares. Imagine pessoas
vazias recolhendo esses pedaços.
Experimente vender a sua alma para esse mundo.
Experimente agir como todo mundo.
Hipócrita. Vazio. Sedento. Sedento de você.
flightless life
A realidade é amarga, azeda.. corre como chama acesa por entre as veias, é um veneno que queima.
A ilusão é um veneno doce, é o beijo lindo em meio à chuva branda, é
luz do amanhecer por dentre as pálpebras semi-cerradas. É viciante,
algo pela qual qualquer insano romântico se jogaria no precipício da
dúvida, da cegueira induzida..mesmo que não lúcida.
O retrato do quadro ilusório não se esconde em reinos distantes,
não é a flor azul das montanhas cobertas por neve, não é o sonho real de
dentro da torre mais alta. Sou eu. É você. É a motivação da lágrima
suavemente deslizando na face branca, branca… É o porquê das valsas no
esconderijo secreto, é a razão do pedido por algo fantástico. É a música
que faz o coração bater, é o choro se deparando com a inexistência do
fantástico, é a a palpitação alegre do fechar de olhos e o sentir do
toque com cheiro de pétalas que não existe.
A realidade é o olhar o topo da árvore e não mais imaginar um
pássaro sem voô em seu ninho, mas a independência em meio ao aconchego. É
o rasgar da fita de aliança entre você e seu desejo maior, a dor de
tudo que quebra e que parte sem ao menos ter feito parte da parte que
falta. A mistura do doce e do amargo que não dá a sensação maravilhosa
do sonho em si, mas a esperança. A esperança que cessa? A esperança é
azeda? A esperança do irreal é mórbida. É escura e é barulhenta. É um
zumbido insuportável.
Um pássaro sem voô, um pedaço faltando, incompleto. A realidade sem
a ilusão é cega, é seca… é o vinho tinto seco puro, sangue. A ilusão
sem a realidade é fantasia, é ver arder o veneno nos ratos dançando a
mais singela melodia da alma, é sonhar com o perfeito sem
limites…sentir o hálito inebriante quando se está só na sala vazia, só
na própria existência.
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