sábado, 29 de dezembro de 2018

Pai,

hoje o dia está muito quente, muito impróprio para estar em frente a uma tela escrevendo. "Vai dar uma volta", você sempre me diz. Mas nós somos tão diferentes. A minha cabeça não espairece com uma "volta", não me refresca, não me anima - pelo contrário, me angustia, me mostra o quão inadequada eu torno com o passar dos anos. As pessoas elogiam muito nossa relação e a forma como conseguimos passar por cima das dificuldades e chegar até aqui. Dizem que somos companheiros, que é isso que importa, que você deve ficar muito feliz em me ter sempre por perto. Você concorda, eu concordo. De fato, foi difícil conciliar a rotina, o temperamento, as opiniões e levar esses onze anos em que somos só nós dois nessa casa. Parece ser o bastante para você e eu digo para todo mundo que para mim também. Mas eu não sou o suficiente. A sua percepção da vida não poderia ser mais diferente da minha, as expectativas em relação ao mundo, o posicionamento frente às dificuldades. Eu sempre tive uma postura passiva, calma, mas sem abandonar tudo que eu acredito e você sempre teve muito respeito a isso. Em suma, parece que nos saímos excepcionalmente bem, se comparado ao caos que poderia ser nossa vida. E é por isso que hoje eu venho escrever para contar o quanto me sinto frustrada por não gostar de viver. Por não sentir que é suficiente a vida que tenho, por me achar inadequada demais em relação a você, suas expectativas, a nossa família, aos amigos. Eu não me encaixo. Parece que todos os sonhos e tudo que eu queria fazer, e sempre fui muito entusiasmada em realizar, morreu antes que eu percebesse e pudesse fazer alguma coisa a respeito. A falta de vontade de acordar todo dia, de tomar alguma decisão em relação ao meu futuro e qualquer realização pessoal não existe há um bom tempo. Você não tem culpa de nada, por favor, não entenda dessa forma. A iniciativa de escrever sobre é para falar sobre coisas que sempre ficaram no ar, mas que me faltou coragem para falar. Eu sei que a sua vida foi muito difícil e que problema na sua vida seria só não ter dinheiro para comer ou pagar as contas. Eu nunca precisei pensar se teria o que comer no dia, nunca tive um boleto vencido sem dinheiro na conta para pagar. Eu nunca tive esse tipo de questão rotineira para resolver porque fui privilegiada demais em ter tudo resolvido antes que isso se tornasse de fato um problema. O ponto central é que eu falhei. Falhei com a menina que eu era antes dos 15 anos e continuo falhando como mulher agora que passei dos 25. Falhei a ponto de não acreditar mais ser possível mudar qualquer coisa, ou sequer ter alguma vontade de fazer algo por mim. Não mereço mais. Todas as fichas já foram depositadas no meu futuro, todos os seus esforços e toda a sua fé de que eu me tornaria uma pessoa incrível. Tudo perdido, mas como te contar que não consigo mais distinguir um dia ruim de um melhor que o outro, que não tenho mais medo da vida ou da morte e que não me convém mais pensar se amanhã vou acordar ou não? Você não entende e também nunca te pediria para entender. Talvez você ache que é tudo falta de coragem e eu não posso concordar mais. Eu não consigo mais ser feliz e me falta qualquer sobra de coragem para conseguir ter vontade de resolver minha vida. Falta coragem para continuar, falta coragem para desistir. Toda mudança possível é o suficiente para brotar uma sensação sem tamanho de que não mereço mais nada disso que está aos meus pés, que nada importa porque eu desperdicei todo o seu tempo, toda a sua fé e todo o afetado direcionado a mim. Eu não teria palavras para conseguir pedir desculpa o suficiente por não gostar de viver, pai. Por não ser genuína no fato de que a vida deu certo, de que consegui me reconstruir, de que ainda tenho sonhos para o futuro. Me dói pensar que talvez o tempo passe e você nunca saiba dessa angústia que tenho carregado, da sensação de inadequação e que eu nem ao menos saiba de onde isso surgiu. Me dói que todo dia seja feito de pensar que seria melhor não estar aqui, mas ter muito medo de que você que falhou. Você não falhou comigo, eu tenho falhado por mim e por você. Me desculpa.