segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

si

É lindo mesmo pregar por aí o quanto nós devíamos pensar mais nas pessoas. O quanto nós ficamos com a alma mais leve quando nos dedicamos plenamente a refletir sobre as necessidades, as vontades e os anseios do próximo, agindo sempre com a delicadeza o olhar atentando ao impacto que você causa na vida do próximo.
Eu acredito na boa intenção. Eu acredito no quanto pode ser benévolo sempre voltar-se ao outro com o olhar vivo e vigilante, calcando suas atitudes de acordo com o bem estar de outrem. Mas hoje eu quero falar do que mais se recrimina: o pensar em si próprio.
Por muitas vezes na minha vida me vi sempre pensando naquele outro muito mais do que pensava em mim mesma. Na verdade, consigo detectar essa minha forma de agir em toas as minhas relações. Fosse com a minha família, fosse com meus amigos ou fosse com as minhas paixões, fossem elas platônicas ou até mesmo aquelas que se concretizaram.
O que quero dizer e, tomando como exemplo específico a minha vida, é que em exatos momentos em que você se encontra perdido, confuso, muitas vezes isso pode estar acontecendo por que, até determinada hora, você nunca olhou para dento de si mesmo para tentar descobrir o que você quer de verdade para si, sem a interferência externa, sem pensar no próximo ou olhar para o próximo.

Não estou falando de egocentrismo. Egocentrismo, embora eu não o julgue e não o vejo com péssimos olhos, é muitas vezes sentido de forma negativa, uma vez que o universo passa a agir ao redor do egocêntrico. Mas.. na verdade, isso é ruim de fato? Enfim, eu acredito que no mundo as pessoas devam olhar para o próximo, para as feridas do próximo a fim de procurar amenizá-las, já que eu não estou falando de um nível global e nem das dores do mundo, da fome mundial e nem nada do tipo... eu tô falando do seu sentimento, de como você age e se você age em função de alguém. Isso é triste. Viver em função do que quer o outro, do ama o outro, do que o outro detesta. 
E eu caio de novo no que eu sempre digo em torno de personalidade, por que se você se prende ao outro a ponto de só estar preenchida a partir das vontades de outrem, como pode querer viver para si mesmo?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Meio?

Por um relacionamento você aceita ser meio expressiva, meio natural e meio você... E ainda quer ouvir um 'eu te amo' inteiro?! ME POUPE!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Do fim.

Há quem vá discordar de modo exagerado, ou talvez timidamente, só para não se comprometer. Há quem vá dizer que a amargura tomou conta da minha vida, que algo de muito ruim tem acontecido pelo meu posicionamento ou até que o Sol estava na casa oposta do meu signo hoje e que e por isso que eu acordei desse jeito, meio rebelde, meio azeda.
Mas na verdade, independente do que os outros digam agora, há uma multidão que vai concordar comigo. Não, eu não estou sozinha nessa. Até porque, no fundo, todo mundo vai concordar comigo um dia.
Com o quê? Bem.. com o fato de que estamos fadados ao fim.
Espera, eu vou desenvolver melhor. Espera, moço, não levante a mão em protesto e nem abra a boca para a defesa da beleza inquestionável da sua vida. Eu não estou falando de beleza, eu estou falando do fim. O fim a que todos nós estamos fadados.
As pessoas podem se iludir um pouco, achando que estou dizendo algo óbvio, do tipo: "Mas é claro que estamos fadados ao fim, somos humanos, humanos morrem!" 
Eu não estou falando da morte.
O que eu quero dizer, meu caro, é que nós, desde que nascemos, estamos fadados ao fim da vida, claro, mas estamos fadados a viver, ao longo de nossos anos, lidando com o fato de que tudo a qual damos início, tudo no qual acreditamos, um dia vai acabar. Não escapam os sonhos, não escapam as vontades, não escapam os desejos.
Os relacionamentos?! AH, esses não escapam mesmo. E, uma dica?! Eles são os primeiros a ter fim. Mas disso eu posso falar mais minuciosamente depois.
Tudo bem.. você não está me levando a sério?! Vai sair, balançar a cabeça e dizer que tudo em sua vida é permanente e bonito?! Mas que saco, eu não estou falando de beleza! Estou falando do fim.
Vamos a uma retrospectiva?! Quem sabe assim te convenço de uma vez. Acho que podemos começar do básico, do que todo mundo gosta de falar, até quem jura que não, mas gosta. Vamos falar dos sentimentos.
Hmmm, um sentimento. Um sentimento.. mas qual?
O AMOR! AH, O AMOR!
Quem não gosta de falar do amor?! O amor, esse, com sabor de fruta mordida (salve Cazuza!), dos calafrios, das noites em claro e do coração palpitante! Quem não gosta de falar do amor? Eu. Eu não gosto de falar do amor. Porque ele está fadado ao fim.
Você se lembra do seu amor de infância? Aquele que você achou que seria o único pro resto da sua vida, ou aquele que era só mais um, mas muito intenso, nas proporções de um amor infantil.. tô falando desse mesmo. Ele não está na sua vida agora. Ele teve fim. 
Mas isso não é exemplo suficiente, eu sei.
O que eu quero dizer é que as pessoas costumam colocar na palavra AMOR o sentido de sua vida, a razão pela qual tudo vale a pena (se a alma não é pequena), pelo qual sempre se deve lutar. Há quem esqueça de si mesmo na busca pelo amor. Há quem se deprima porque alguém um dia colocou em sua cabeça que só se pode ser feliz com alguém, e, se está sozinho, não é feliz.
A questão é que o amor acaba. Se é que um dia você vá encontrar algo para se chamar de amor, essa coisa abstrata, do qual todo mundo fala, pouca gente identifica e que porra nenhuma de ser humano explica.
Não explica, mas fabrica. Nessa busca louca por alguém ou alguma coisa para acreditar que é para sempre, que vai te completar, as pessoas fabricam sentimentos, criam as merdas de expectativa e acabam ali, vazias, com uma idealização fracassada tremenda, mas vazia. E porque? Porque até as idealizações chegam ao fim. Nós estamos fadados a ele.

Não há como fugir do fim, ele simplesmente vem. No caso do amor, ele vem antes do que você imagina: vem antes do casamento, antes do namoro, ou, até mesmo, antes de virar alguma coisa. O fim é uma constante em nós, fora ou dentro, mas nem sempre precisa ser doloroso. O fim é um buraco negro pra quem o constrói, pra quem se torna refém de um sentimento que criou sozinho e que tenta manter para sempre. 
O fim é uma etapa. E vai concordar comigo quem já o experimentou, e percebeu que nenhum fim é uma tragédia quando ele se encontra dentro apenas de você mesmo, e não apoiado em outra pessoa. Colocar o seu fim nas mãos de outra pessoa, ou pior, nas mãos de um amor, que tem prazo de validade, é aprisionar-se de uma vez no vazio, na insegurança e na "beleza inquestionável da vida". Mas eu não tô falando de beleza. Eu estou falando do fim.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os quadris da dançarina


"Você sabe o que eu sou capaz de fazer, e sabe que eu não tenho medo de nada."
Acredito que essa foi a melhor frase que eu poderia dizer naquele momento. Nada se encaixaria melhor, nada faria com que eu me sentisse tão no controle da situação. E será que não estava? Para que estava tentando intimidar alguém que já estava na palma da minha mão?
Eu só consegui olhar para o teto (o lustre de vidro era incrivelmente brilhante) antes de bater os punhos sobre a mesa e baixar a cabeça como quem diz "você é realmente patético". Eu não sou o tipo de pessoa que se impressiona fácil, e muito menos o tipo que é comprada com um jantar em um restaurante de lustre brilhante. Eu não esqueceria nada por tão pouco. Eu não retiraria minhas palavras ríspidas e nem colaria seu vaso de porcelana por uma comida legal (entenda como quiser).
Na verdade, ele começou com um pedido de desculpas, eu não deveria ter sido tão indiferente, mas se eu tivesse pedido, ele ajoelharia, tiraria minhas sandálias e beijaria meus pés. Isso seria um pouco constrangedor, mas que mulher não ia querer um homem como aquele a seus pés?
Mas eu não pedi que ele se ajoelhasse, eu estava meio cansada do pedido de desculpas e logo entrei no ponto importante. "E então, ela é tão boa na cama quanto nas aulas de dança do ventre? Isto é, ela faz aquilo mesmo com os quadris?". E é claro que ele quase derramou toda a taça de vinho tinto no meu vestido. Surpresa! Eu nunca fui a boba que ele achou que eu fosse.
Meu Deus! Quem é tolo o suficiente para pensar que eu rasgaria as roupas dele no meio da noite só por causa de um olhar na sorveteria? Eu não me descontrolaria por tão pouco, é claro que não. Meus psicólogos sempre me definiram como uma pessoa calma e centrada. Será que ele realmente achou que eu explodiria por causa daquilo e só por isso estava me pedindo perdão? Era demais.
Minha pergunta não só não teve resposta, como vários tipos de negação sairam daquela boca. Se eu fosse uma mulher fraca, teria me deixado embebedar por aquela lábia maldita, aquele cabelo mal arrumado e o cheiro de gel pós-barba que ele estava usando. Tentador, não?
Para mim, a magia se quebrou quando um telefonema no meio da noite, coisa muito estranha, me sugeriu que procurasse um hotel do centro e perguntasse pela tal dançarina. Peguei o carro e fiquei esperando que alguém saísse de lá, e é claro que já havia percebido que o carro meu querido cônjuge estava estacionado próximo da entrada do prédio. E quem saiu de lá? Adivinhe.
Confesso que meu sangue que era frio, ferveu.
Não fiz nada, não fiquei brava, cheguei em casa e só tive vontade de beber.
No dia seguinte acordei, e não consegui mais esconder o jogo. Quebrei vasos, rasguei papéis, cortei roupas… parecia que algo havia me possuído. Explodi, explodi em silêncio. Não disse uma palavra.
Encontrei então um bilhete, era dele. Um bilhete deslavado, de uma cara de pau incrível, convidando para o tal jantar.
Decidi mostrar então que meus quadris talvez não se movessem tanto quanto os da dançarina, mas eram os quadris da mulher que o tinha nas mãos. Escolhi um vermelho fatal e subi no salto ( instinto femino de querem estar sensual para mostrar aos homens o que eles estão perdendo ). Não deixei que abrisse a porta do carro para que eu entrasse, fumei o caminho inteiro até o restaurante. Estava visivelmente irritada, mas não disse uma palavra sobre o incidente da noite passada.
E ali estávamos nós. Ele não respondeu minha pergunta, só tentou desviar minha atenção.
Chegou uma hora que eu, irritada, revoltada, não consegui esperar mais. Eu estava realmente anciosa para ver a reação dele quando eu disesse que esperei no carro enquanto ele fazia uma ‘aulinha’ no quarto da dançarina. Mas eu não aguento por muito tempo, não faz parte da minha natureza. Perguntei novamente, e ele começou com aquela mania ridícula de gaguejar quando está escondendo algo. Eu conhecia cada olhar diferente, cada palavra com tom de voz modificado, cada mania daquele homem. Eu sabia o quanto ele podia ser sínico.
‘ Tudo bem, vamos facilitar as coisas? ‘ peguei um cigarro e olhei firme, ‘ porque você não me conta como conseguiu ser tão canalha? Estou ansiosíssima para saber. ‘
Não houve nada além de silêncio e uma cabeça baixa.
O gerente do restaurante veio me pedir, por favor, que apagasse o cigarro, que era expressamente proibido fumar ali.
‘ Não será necessário. Já estou de saída. ‘
Levantei, por incrível que pareça, não vacilei, mesmo depois das cinco taças de vinho, fiquei firme e coloquei o dinheiro sobre a mesa.
‘ Está aqui a minha parte. A partir de hoje, você não me deve mais cortesias. ‘

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Nietzsche e o esquecimento

Hoje fui muito afetada em uma aula na faculdade, a qual me fez repensar muita coisa sobre a minha vida.
Saí meio atônita da sala, querendo minha casa, minha cama e meu aconchego. Entrei em contato com Nietzsche em toda sua euforia defendendo que temos, para encontrar a felicidade, de esquecer. Ninguém é feliz sem esquecer.
À apresentação dessa ideia foram adicionadas pitadas de "avisos": de que devemos nos desprender das lembranças que nos vinculam aos fatos mais traumáticos, mais pesados, e a tudo que nos liga a um sentimento ruim que muitas vezes (na maioria, na verdade) eu acabo nutrindo. Um outro "aviso" foi o de que sentimos essa experiência de esquecimento frequentemente, já que um indivíduo não consegue viver 24 horas calcado em passado, em dores sem remédio do que passou. Ou consegue? Viver assim é viver infeliz, segundo Nietzsche.
De verdade, não sei o que pensar.
O fato é que me comovi muito, me senti, de fato, como esse exemplo de pessoa que vive nesse passado, que não consegue tecer o presente sem as amarras e os vínculos criados pelo passado. Viver livremente, sem as penúrias, sem os sofrimentos que outrora foram vividos intensamente, mas que agora constituem fantasmas sendo mastigados o tempo todo, tentando extrair o que poderia haver de vida nele.
Mas, o quão doloroso pode ser libertar-se dessas lembranças? Tenho medo. Não consigo conceber a reinvenção, a redescoberta de si sem tudo o que já foi constituído até agora, criar o novo eu.
Acho que tudo é uma questão de se estar pré-disposto à essa reconfiguração de si. Até que ponto o que nos mantêm vivos (e agora me refiro a nós, quand quero dizer só sobre mim) é aquilo que já passou, aquilo que nos deixa tão longe do presente?! Quais as lembranças são vitais?
Justamente nesse ponto, consigo concordar com Nietzsche: reinventar-se, recriar a si e esquecer é para poucos. É para os dispostos ao novo, a abandonar o que foi constituído e assumir às rédeas da vida. E, retomando o que já disse anteriormente nesse blog, deixar de viver à margem do hoje.

Acredito que tudo que me toca, ultimamente, são os indícios de que deve haver uma mudança de postura, uma redescoberta, uma reinvenção, algo muito intrínseco à noção de identidade, em uma onda de comoção que vem desde mapa astral, mensagens sublinares e aulas densas de teoria da história.
Quem sabe logo mais eu faça um manual dessas comoções, para que, se eu não uma dessas poucas que consegue se reinventar, pelo menos eu possa indicar o caminho para os mais dispostos.

terça-feira, 29 de maio de 2012

revirar, reviver, estar à margem

Faz tempo tempo que as coisas aconteceram. Faz tanto tempo e parece que foi tão rápido.
Eu não tenho certeza se estou preparada para falar de tudo isso de novo. Não sei se está na hora de revirar o baú novamente, procurando por algum detalhe que passou batido pelos meus olhos ansiosos, cheios de vontade de ver uma cena bonita, daquelas que eu colecionei com tanto cuidado. Talvez não seja, talvez eu só esteja tentando encher a minha vida de algo que valeu a pena, em algum momento, procurando uma inspiração para seguir em busca de algo parecido, ou diferente na medida certa pra me fazer sentir alguma coisa de novo.
Minhas tentativas de avaliar tudo, inúmeras vezes, incansávelmente vem dessa minha obsessão em manter viva uma coisa que só pulsa em mim, com vigor algumas vezes, mas na maior parte do tempo, uma veia minha lutando para sobreviver, quase que gritando por ajuda.
Pode ser que isso aconteça porque foi o único momento da minha vida, até agora, em que me senti envolta por uma coisa tão mágica, tão minha, que saía de mim, para encontrar em outra pessoa... Mas o que eu sentia não vem ao caso. Nisso eu não preciso mexer, eu sei bem que o que eu sentia não está sendo posto à prova.
Quero revirar isso tudo de novo pra saber em qual momento eu me perdi, e fiquei imersa nisso em que me encontro até hoje. Em que tudo me afeta, me atinge, mas nada me tira dessa. Em qual momento perdi a total confiança de que podia sentir essa mágica toda de novo. Pode ser doloroso, mas a cada dia, a cada mês, eu tento revisitar tudo o que perdi para sentir de uma forma mais madura, saber lidar com tudo de forma que nada morra, ao contrário, que eu saiba lidar.
De fato, eu amadureci muito. Amadureci ao ponto de não precisar revisitar o passado (será?) para ter certeza de sentimentos que ficaram lá, a ponto de me adaptar com o fato de que sim, alguma coisa ficou lá. Mas que isso é fato, eu não posso voltar para lá e recuperar alguma coisa, até porque isso não envolve só o que eu sinto, só o que eu espero das coisas, da vida.
É difícil demais lidar com as mudanças. É difícil saber administrar um tempo que era dedicado com outra pessoa, pensando em outra pessoa. É realmente muito difícil pensar em mim, mesmo depois de tanto tempo. Fatores acumulados que me tornaram uma pessoa tão nostálgica, tão presa aos anos que passaram. Quase que no mundo a lua constantemente, revisitando lugares onde estivemos, pessoas com as quais falamos, e até as que falavam de nós.
Quase que certamente, na semana que vem, eu terei vontade de revisitar tudo isso de novo. Vou procurar um detalhe esquecido que faça de tudo aquilo uma novidade, a fim de manter aquela veia pulsando, mesmo sabendo que ela me prende tanto à minha metade que se afundou com os planos que foram feitos a toa... Talvez eu me revisite e chegue à uma conclusão, algo desperte e eu consiga falar de maneira madura e compreensível que não vivo mais à margem de mim. Que consegui me doar à vida real e ao agora. Que consegui cuidar de mim e de outra pessoa, nova, que não pertence ao passado saturado de um nome só, escrito em negrito em mim.
Quem sabe eu saia da margem, me canse desse baú, que devia estar empoeirado e esquecido, e mergulhe de cabeça no que eu preciso agora: viver. Sem sombras, sem fantasmas e sem aquele sonho. Porque aquele sonho já foi.

E então... Amar.

Hoje quando estava entediada olhando ao meu redor e pensando na corda bamba na qual eu me encontro, percebi algo que não via nas outras pessoas.
O pássaro bicolor que pousou no meu ombro talvez seja o sinal que alguém enviou para que eu soubesse que eu fui a escolhida. Bem, não há mais ninguém com esse mesmo pássaro pesado e barulhento por aqui, talvez eu devesse me desvencilhar dele, estou tombando para o lado e isso pode me fazer cair. Mas esse pássaro é meu sinal, é uma marca, para que Aquele, quem sabe, possa chegar a vir de repente e buscar a pessoa escolhida. Eu fui a escolhida, estou aqui! Veja meu pássaro!
Coincidentemente, no mesmo dia que me dei conta do enorme peso que essa ave maldita exercia no meu ombro, também percebi que havia caído um cadeado do meu colar. O colar que eu usava para simbolizar que duas almas totalmente distintas poderiam estar ligadas a uma mesma chave, mas depois que eu acordei de um sonho lindo, procurei, freneticamente, o cadeado perdido. Não encontrei. Isso me sugere que o cadeado sumiu por ter encontrado uma outra chave, a chave que o abria mais facilmente que a que tinha. Continuo com o colar. Com a chave. Com o cadeado. Um só cadeado, um cadeado solitário.
Se eu olhar para cima, além de perder o equilíbrio, eu sei que vou ver o enorme número de estrelas que eu já desisti de contar, e tenho certeza que não encontrarei minhas respostas apenas pelo ato de tombar a minha cabeça e sentir meu sangue se concentrar todo me fazendo ficar vermelha. A vermelhidão do meu rosto pode dizer tantas coisas, é algo tão raro, que eu não estou disposta a ficar vermelha por um motivo tão banal a ponto de acabar com a magia da face corada, tão misteriosa. Não olharei para o céu, já sei o que existe lá, talvez eu me sinta triste ao ver o que vejo todas as noites, exatamente igual.
Agora então me ocorreu a idéia de ao invés de olhar para cima, olhar para baixo. Abaixo de mim há uma corda, uma corda marcada por quatro linhas amarelas, como se indicassem a porcentagem da corda que eu já consegui passar, só para constar, acabo de verificar e não cheguei aos vinte e cinco ainda, há muito caminho pela frente. Mas novamente eu digo, não olharei, é certo demais o que está abaixo de mim, eu sei que nem um milagre faria que a imensidão dos espinhos da roseira se transformasse em uma cama limpa com pétalas de rosa para que minha queda fosse bela ao invés de trágica, assim como só um milagre faria com que, ao olhar para o peito, eu encontrasse ali, preso e seguro o cadeado perdido do meu colar da vida, o cadeado que acabaria com a solidão da chave que não consegue viver para um só. É melhor não olhar.
Do meu lado esquerdo há o pássaro. Meu sinal. Minha marca. E eu espero ansiosamente o dia em que Ele chegará, procurará atenciosamente por toda a sala e verá o pássaro, esplendoroso a fazer barulho, indicando sua presença em meu ombro machucado. Então Ele virá ao meu encontro e dirá com palavras doces ”É você, não poderia ser outra, venha comigo e desfrute de sua recompensa por suportar a dor do pássaro” e eu me levantarei, mas logo deitarei, deixando a matéria morta no chão e receberei, enfim, a luz prometida. Pode ser que junto com as palavras doces, Ele traga ainda não meu cadeado perdido, mas um molho de chaves e entregue em minhas mãos, me dando a responsabilidade de abrir todos os cadeados do mundo, libertar todo o amor possível. Viver trabalhando com o amor, viver em meio a amor. Amar.
Nesse dia, eu não estarei mais na corda bamba, poderei olhar para todas as direções possíveis. Estarei bem. O pássaro seguirá seu rumo a procura de um novo pouso, e nada mais será um peso. Meus cadeados estarão perdidos, sim, mas em troca, todas as chaves em minhas mãos. E então… Amar.

bege, margaridas no cabelo.

Entrei no carro e novamente você não disse nada, só me olhou com aqueles olhos curiosos de quem espera alguma palavra. Olhei para você e você olhava para mim. Momento perfeito, romântico. Não.
Vou dizendo desde o início que tenho em meu poder um copo e que não estou muito preocupada com o fato de que logo seu conteúdo pode estar inteiro virado em sua roupa. Para ser bem sincera, eu adoraria isso. Agora, me sinto em uma música da Amy Winehouse em sua relação conturbada com os homens, quem sabe eu possa te explicar como é se sentir assim.
Me peguei ontem vendo as fotos de quando éramos apenas aqueles loucos que não queriam nada mais que diversão. Logo, é inevitável, eu me pergunto: Porque você se tornou isso, tão diferente? Você não é mais aquele cara com quem eu brindo a vida. Você não é mais aquele que me deseja até quando falo alto e ri dos meus escândalos. Será que nós caímos na rotina? Depois das fotos, estava chorando no chão da cozinha de saudade de você, mesmo estando na sua frente agora, eu sinto saudade de você.
Você se lembra de quando nós combinamos de nos casar, só você aceitaria eternamente os risos fora de hora, altas doses vida injetáveis em sua veia, noitadas nas ruas da cidade. Hoje te vejo me recriminando e aquele bar velho onde você me conheceu dançando como louca não é mais ambiente para mim, concorda querido?
Não há mais ninguém entre a gente. Seu apartamento é em frente ao meu e eu não consigo mais apertar a campainha e não te ver como uma freira querendo me converter a todo o momento. Quem sabe se você não disesse a todo momento que eu sou alguém diferente do que você conheceu?! Será que você está crescendo e não me quer mais como eu era antes? Eu te vejo careta mesmo com suas camisetas modernas.
Ainda estava chorando na cozinha por alguém que estava me repugnando até então quando parei para pensar no quanto essa cena estava deprimente, que tudo gira em torno do meu umbigo e que ninguém, muito menos ele, poderia me fazer chorar no chão da cozinha. Tão deprimente. Deitada ali, encontrei embaixo do fogão as chaves no apartamento da frente, que na nossa última briga, foi lançada aos ares e eu nunca mais encontrara.
Com as chaves e um lingerie nova, fui a sua casa decidida a te fazer voltar ao normal. O que estava acontecendo? Confesso que prefiro roupas íntimas mais confortáveis, mas o que não se faz por um amor?
Nada na sala, nada na cozinha, nada no quarto, nada no banheiro. Onde estava? Rua? Bar? Não, você agora é um santo.
Sua condição faz a minha, não estou nessa com você. Nós nos casaríamos, mas acho que não quero mais dividir o mesmo teto com alguém que a qualquer momento me exorcizaria com o olhar. Sempre foi minha a última palavra. Como eu nunca percebi que você não passava de um boneco manipulável que estava empolgado com a minha vida de aventuras, na qual você cansou de se arriscar?!
Na rua, qualquer mulher encontra inúmeras possibilidades para um fim de noite, eu estava um pouco desconfortável, mas o que é o desconforto perto daquele misto de querer e não querer saber onde você estava? Ninguém some nessa cidade, a menos que se queira. Você ainda é o tipo de cara que gosta de sumir?
Mais um copo e você novamente me encontra do jeito que nós nos conhecemos, como uma louca, rindo e falando besteiras. Mas seu olhar é outro, não vejo um interesse mas um olhar de pena. Você realmente está se sentindo bem com isso.
Você sumiu de novo.
Sumiu, de vista e de dentro de mim. O que está acontecendo?
O que se passou depois eu já não lembro direito. Mas eu sei que não foi uma idéia fácil de colocar na cabeça que você estava sentado do lado de alguém que deveria ser eu. O que você consegue ver em alguém como ela? É divertido passar noites me claro falando do novo emprego dela enquanto eu jogo sobre você os olhares você costumava dizer que eram irresistíveis?
Eu ainda estou com a minha nova lingerie e estou vendo o quanto o banco do seu carro é macio, ela está com uma lingerie nova também? Foi ela quem te converteu?
Eu ainda tenho um copo na minha mão, e você continua me olhando com aquele olhar de quem não entende nada. Você nunca entendeu nada.
Não responde nada do que eu pergunto. Bom, é melhor entregar as chaves do seu apartamento, não quero encontrá-las embaixo o meu fogão quando estiver deitada pensando no quanto você é tolo.
Eu beberia agora, o resto do meu sagrado líquido do meu copo se ninguém tivesse batido no vidro do carro. Abri o vidro.
Sem decotes, sem salto, sem cabelo arrumado, sem maquiagem, sem nada. É ela?
‘Quem é ela?’
Sem tempo de responder. Meio que com uma idéia de fazer parecer um acidente, meu copo voou na blusinha branca da ‘moça’ que ficou lavada.
Como eu imaginava, com a transparência da blusa, só pude ver um grande sutiã bege sem atrativos. Como se não bastasse, recebi um olhar fulminante, mas desculpa amiga, você não vai conseguir fazer comigo o que fez com aquele que eu achava que me amava e que talvez não guarde mais as cópias das fotos que ainda estão no chão da cozinha.
A propósito, tire da sua carteira a imagem de nós dois. Substitua pelo seu novo amor com margaridas no cabelo.

e se fosse hoje?

Se eu morresse hoje…
Se acontecesse nesse momento, eu saberia que o mundo me acolheu bem independente do que eu já tenha dito sobre ele, e que o mundo não é culpado por tudo o que já me machucou, mas sim outras pessoas que também tentam culpá-lo. Eu saberia que ‘o mundo’ é a denominação mais fácil para quem busca não aceitar que perdeu suas próprias oportunidades.
Se eu moresse hoje, eu não teria medo de me jogar do precipício da minha própria alma. Não hesitaria em levantar pela última vez e correr em meio aos girassóis, não me perderia nas mágoas do meu ego, não caberia a mim decidir e pensar no futuro, aguardaria o fim deitada sob uma velha árvore e murmuraria palavras doces enquanto dentro de mim nossa música me embalaria.
Se hoje de fato fosse o dia, estaria certa de que mesmo sabendo que pessoas me enganaram, tudo isso serviu para que me tornasse hoje a pessoa que sou agora. Que mesmo com as pequenas e grandes mentiras, tudo valeu a pena pelo aprendizado incrível que me foi oferecido, mesmo com a dor da enganação. Saberia que cada lágrima derramada por causa dos outros foram alguns milímetros de sentimento saindo de mim através dos olhos, que cada noite fria com a cabeça girando constitui uma etapa obrigatória no processo de me tornar o que sou nesse momento.
Se acontecesse nesse segundo, gritaria alto o quanto me sinto bem por ter experimentado as coisas mais lindas até então, o quanto eu sou grata por cada pedra que eu pude retirar do meu caminho com as próprias mãos… por ter conhecido um olhar sincero após um beijo, por poder dizer que tive do meu lado pessoas mágicas, e outras nem tanto, que me ajudaram a encontrar as peças perdidas dos meus quebra-cabeças. Eu levaria comigo para sempre aquele cheiro de chuva, o perfume de pé de pitanga do quintal, a lembrança dos anjos que passaram por mim e deixaram rastros por todo meu ser.
Se eu moresse hoje, não duvidaria das palavras de quem provava, a cada dia, que valia a pena. Não aceitaria fácil a desistência, faria inesquecível cada segundo de contemplação da vida, sem me perder nos pensamentos pessimistas que costumavam impregnar minha mente. Renovaria cada sorriso na presença daqueles que precisavam me ver sorrindo para manter viva a chama da esperança.
Teria mostrado par todos que era possível amar até mesmo aqueles que me renderam choros de raiva, que era possível fazer da vida algo bem mais amável. Em falar em amável…
Faria as mais belas juras de amor em frente ao espelho para entender que é impossível amar alguém sem se amar primeiro. Não sacrificaria meu castelo de cartas do coração por caprichos de mulher, não teria dado a cara à tapa sem saber o real motivo que me levava a fazer isso. Esqueceria as dores de desilusão antes de dar minha mão a outra pessoa. Esperaria o tempo necessário o som da voz de quem me fazia bem, porque a maior prova de amor é doar seus dias a quem precisa de tempo.
Aproveitaria as gotas do meu cabelo na chuva para lavar as feridas que nunca cicatrizaram. Diria até o fim da minha voz que o amor que estava dentro de mim não era o maior do mundo, mas o mais sincero, total entrega do meu ser que eu desisti de censurar. Cantaria e dançaria ao som da nossa música até meu corpo se sentir exausto demais, e deitar no chão sonhando com a recompensa de um sentimento puro.
Deixaria de lado minhas falhas humanas e buscaria virtudes divinas escondidas em pontos remotos de mim só para te dar o meu melhor. Sacrificaria meu corpo, minhas palavras, meus sentidos, para tentar te mostrar que ainda vale a pena lutar pelo que é nosso que não há nada mais contraditório que amar e não estar perto, sentir junto o que foi nos dado, não desfrutar da essência se Deus em nós.
Diria, incansavelmente, que o que eu queria, e sempre quis, desde o início, era você ao meu lado mesmo que por alguns segundos, segundos de total entrega de sentimentos, te queria comigo até quando seu corpo se aventurava em outros corpos. Te diria, mesmo sem coragem, que estaria do seu lado como um vento de lembrança, que te amaria mesmo quando dissesse meu nome envolto em esquecimento e frieza.
Se hoje fosse meu dia, entregaria minha a alma a todos que me dirigissem olhares, e assim, eternizar meu ser em cada pessoa amada por mim em vida. Abaixaria minha cabeça e esperaria, com calma e ligeira ansiedade pelo momento em que a vista escurece e nada pode nos manter aqui. Aguardaria, sem alarde, o mais puro sentido da morte, o estar morrendo. Atenderia o chamado de Deus, e deixaria aqui a imagem de alguém que amou, amou mais que tudo a vida, alguém que partiria com dúvidas, mas com a certeza de que cada suspiro valeu a pena e que a coisa mais incrível que poderia ter ocorrido na minha existência toda, foi perceber que até as dores, as piores dores, trazem consigo uma carga de benfeitorias para aquele as enfrenta de cabeça erguida.
Se eu moresse hoje… Eu seria um vento de lembrança. O vento de lembrança que se renova a cada noite em claro. Um vento de lembrança e esperança.
Se eu moresse hoje.

desconfiança repentina.

A verdade é que eu não sei se as pessoas que dizem se preocupar estão de fato tão preocupadas. Quantos ‘eu te amo’ eu já ouvi até aqui? Quantas vezes já senti esses ‘eu te amo’ realmente presentes nessas frases?
Quantas das pessoas que eu conheço estariam dispostas a deixar de lado os próprios interesses para me dar a mão quando precisasse? Quantos ‘por favor’ seriam necessários para que alguém pudesse começar a pensar em me ajudar?
Palavras. Palavras. Mais palavras. Hoje conheço alguém e daqui alguns minutos terei ganho uma declaração de amor de quem se propõe a ser meu melhor amigo eterno. E até quando vale a pena colecionar juramentos de amizade, promessas de lealdade se nada disso tem um fundo de verdade? Um tipo de ”recheio” sentimental?
Se alguém me machucasse hoje, eu relevaria tudo só pelo sentimento que dizem ter por mim?
Calma. Eu acho que isso é um ponto delicado demais para mim. Desconfiar da minha capacidade de acreditar e relevar é o mesmo que duvidar das palavras daqueles que estão ao meu lado. Duvidar que tudo o que foi dito num dia, no outro não vale uma moeda de um centavo. Duvidar que meus amigos podem me apunhalar pelas costas.
E quanto a esse jeito superficial das pessoas? Esse modo da boca pra fora de dizer que alguém é muito especial, sem conhecer de verdade o sentido da palavra especial? Sobre ferir sentimentos, e depois curar tudo com simples ”desculpas”. DESCULPA parece uma palavra mágica que amolece corações. Mas devia ser assim? Está errada a pessoa ue não dá a mínima para desculpas?
Ouvi dizer que se conhece realmente alguém quando esta pessoa está com você nas mil maravilhas e nos piores momentos. Acredito que a pessoa que me disse isso e continua dizendo pelos quatro cantos não levava em consideração que hoje é cão come cão e que cada um defende seus interesses. amigos estão cheios por aí, mas cada um com seu próprio interesse acima de tudo. Quantos de seus amigos dariam a vida por você?
E se de repente eu acordasse e me visse sozinha, sem ninguém por perto, ninguém para me dar a mão, ninguém para estar comigo?! Se eu percebesse que não há mais ninguém para me dizer onde ir, com quem ir, me entretendo, me mantendo com um sorriso no rosto… mas essas pessoas ficariam comigo sempre, me dariam a mão se não houvessem interesses nisso tudo?
Hoje eu não me sinto confusa tanto quanto antes. De repente o interesse alheio me pareceu tão claro… Vale a pena confiar? Continuar ali, do lado de alguém que te acorrenta com um simples ‘eu te amo’? Será?
A mesma pessoa que tantas vezes já me contou sobre confiança e sobre amizade também me disse que a pessoa verdadeiramente livre é aquela que pode se desvencilhar daquilo que convém à sua felcidade. E se você descobrisse que todos à sua volta não estão preocupados como deveriam estar? Que os interesses falam mais alto e a sua fonte do que tem a oferecer está secando?!

é isso

E eu que jurei que se pudesse eu sumiria de uma vez por todas…
Será que isso está tão longe de mim mesmo? Sempre que me pergunto se posso sair daqui, me pergunto se vale a pena desistir. Tempestades em copos d’água nunca fizeram meu tipo e o que sinto eu não classifico com bobagem. Quem sabe eu escreva um romance daqui a pouco sobre o quanto eu desejo sair da minha vida para entrar na de outra pessoa.

Escala de Cinza

Todo mundo um dia vai escrever sobre branco. O branco que dá quando não há mais nada para escrever…quando o que resta é suspirar e olhar para a tela roxa sem conseguir colocar nada de criativo para fora. Todo mundo um dia vai pensar branco. Algumas pessoas só pensam branco. E agora eu agradeço por pensar colorido ou em escala de cinza a maior parte do mundo.
Eu poderia escrever sobre muita coisa, o universo de assuntos que eu gosto de falar é muito amplo, mas provavelmente não interessaria tanto quanto as crises de desconfiança e incredulidade na existência de algumas coisas… ou interessaria?! Parece-me que se eu escrever sobre minhas dúvidas freqüentes e minha vontade constante de desaparecer do mapa só faz com que as dúvidas se multipliquem e a vontade de sumir… nem se fala.
Acho fácil também discutir por páginas e páginas daqui sobre a futilidade das pessoas, sobre essa mania ridícula de colocar o material sempre a frente do sentimental, sobre essa busca infinita por um poder que não traz poder nenhum. Falar sobre os cegos desse mundo, aqueles cegos de alma, os cegos que podem mas não enxergam.
É fácil escolher um tema e fazer um conto de fadas, um drama que faça quem lê se emocionar… mas eu nunca vi alguém escrever um romance sem nunca ter tido contato com alguma forma de amor, do mesmo modo que ninguém faz um documentário sem uma pesquisa de campo. Não, isso não é um momento "não posso falar de amor porque não o sinto, coiada de mim", longe disso, é um tipo de explicação fria e seca do porque escrever tem sido tão difícil. O como é tão complicado fazer alguém pensar em algo se eu mesma estou com a cabeça tão fazia… tão branca.
Quem sabe daqui um dia, dois dias, algumas semanas, eu pense em algo digno de ser escrito e principalmente digno de ser lido, ninguém permanece tanto tempo sem impulsos de fazer aquilo que gosta. Ou permanece? Quem sabe um dia eu esteja aqui escrevendo tanto, sendo capaz de cansar quem lê com histórias mirabolantes e aventuras incríveis. Quem sabe minha pesquisa de campo esteja mais próxima do que eu imagino e quem sabe ainda algo de muito grandioso esteja para acontecer que eu tenha que guardar minhas melhores palavras para descrever algo que está por vir. Quem sabe eu não tenha como escrever… Ninguém sabe.
Por enquanto minha escala cinza da vida não tem distraído uns minutos de alguém e meus momentos coloridos são de tal raridade que quando é anunciando já há uma outra luz mais forte ofuscando a minha. Mas também pode ser que em meio a tantas pessoas que copiam o colorido de alguém, ou a minha escala em cinza seja o diferencial que eu preciso para me ver…um ponto branco diante do espelho. Talvez as dúvidas se multipliquem ou sejam divididas, mas isso só o tempo dirá. O tempo e a minha vontade de encontrar respostas, ou a minha vontade de sumir me leve para onde eu sempre quis estar e sem o menos sacrifício eu ainda diga que sumir é o mesmo que dormir sem poder acordar nunca.

sometimes...

E quando o que vem de dentro é mais forte que qualquer coisa que já possa ter sido visto por fora?
São os dias escuros, nublados… eu sei que essa é a única explicação. A justificativa da terra molhada, do cheiro úmido e de cada nuvem pesada e negra como a espessa névoa dentro de mim. É o que conforta. Estações vêm e vão e acabam trazendo para a minha dor a trégua de um dia ensolarado. É o fardo pesado para quem se julga frágil, e é a surpresa de uma vitória em meio a trovoadas. É iluminado e é sombrio. Contraditório. As vezes.
As vezes é a pretensão dos seres humanos, as vezes é o orgulho desenfreado e as vezes é a cobiça cega… e as vezes sou eu. As vezes sou só eu contando uma história sem remediações para meu reflexo na frente do espelho. Talvez seja mais brando do que eu julgo, talvez seja a tragédia perfeita para alguém já tão acostumado com tragédias inventadas.
A verdade é que todo mundo sempre adora uma historinha de amor para acalmar o coração, todo mundo gosta de um drama barato para desviar a atenção dos próprios lixos cotidianos, todo mundo quer se enganar. E eu não julgo… eu desejo me enganar as vezes. A mentira, a ilusão, o engano, ou como decidir chamar isso… acalma o coração, faz as dores ficarem suaves. Pelo menos até o anoitecer. O anoitecer é trevas… ou não.
 
 
 
 
A dor é dor. A ilusão é só uma ilusão que a gente a cria para desviar a atenção, pode ser um misto de orgulho e indiferença para não lidar com aquilo que é real demais a ponto de causar náuseas. E embora minha reflexão sobre isso seja clara demais, e eu saiba que a dor da realidade depois da ilusão barata criada é o chão, de repente eu me perco no meu labirinto de novo e esqueço de toda a coisa bonita que é ver tudo claro.
Bem claro.
As vezes…

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Venda o seu corte de cabelo. Venda seu olhar. Venda seu jeito de movimentar as mãos enquanto fala. Venda suas palavras e expressões viciadas. Venda o modo como você anda e se veste. Venda o tipo de bom humor que você costuma ter em dias improváveis. Venda tudo o que você tem. Se venda.
Venda o mundo ao seu redor e sinta-se comprado também. Sinta-se livre do fardo interminável de administrar sua própria vida e suas próprias características que foram moldadas a você. Sinta a brisa tocando sua carcaça vazia enquanto o indivíduo ao lado se transforma um reflexo do seu eu anterior, enquanto ele chora as angústias que você chorava antes, enquanto ele vive a essência na qual você se inebriava antes.
Experimente dizer a si mesmo que não é seu, agir a partir dos outros,  não fazer nada por si próprio.
Experimente adotar características que não são suas, adotar o amor superficial alheio, ficar impregnado de alguém. Imagine um mundo de pessoas vendidas, como se pedaços de cada um estivessem espalhados por aí, pedaços de personalidade e sorrisos e faces e olhares. Imagine pessoas vazias recolhendo esses pedaços.
Experimente vender a sua alma para esse mundo.
Experimente agir como todo mundo.
Hipócrita. Vazio. Sedento. Sedento de você.

flightless life

A realidade é amarga, azeda.. corre como chama acesa por entre as veias, é um veneno que queima.
A ilusão é um veneno doce, é o beijo lindo em meio à chuva branda, é luz do amanhecer por dentre as pálpebras semi-cerradas. É viciante, algo pela qual qualquer insano romântico se jogaria no precipício da dúvida, da cegueira induzida..mesmo que não lúcida.
O retrato do quadro ilusório não se esconde em reinos distantes, não é a flor azul das montanhas cobertas por neve, não é o sonho real de dentro da torre mais alta. Sou eu. É você. É a motivação da lágrima suavemente deslizando na face branca, branca… É o porquê das valsas no esconderijo secreto, é a razão do pedido por algo fantástico. É a música que faz o coração bater, é o choro se deparando com a inexistência do fantástico, é a a palpitação alegre do fechar de olhos e o sentir do toque com cheiro de pétalas que não existe.
A realidade é o olhar o topo da árvore e não mais imaginar um pássaro sem voô em seu ninho, mas a independência em meio ao aconchego. É o rasgar da fita de aliança entre você e seu desejo maior, a dor de tudo que quebra e que parte sem ao menos ter feito parte da parte que falta. A mistura do doce e do amargo que não dá a sensação maravilhosa do sonho em si, mas a esperança. A esperança que cessa? A esperança é azeda? A esperança do irreal é mórbida. É escura e é barulhenta. É um zumbido insuportável.
Um pássaro sem voô, um pedaço faltando, incompleto. A realidade sem a ilusão é cega, é seca… é o vinho tinto seco puro, sangue. A ilusão sem a realidade é fantasia, é ver arder o veneno nos ratos dançando a mais singela melodia da alma, é sonhar com o perfeito sem limites…sentir o hálito inebriante quando se está só na sala vazia, só na própria existência.