segunda-feira, 23 de agosto de 2021

depre

Muito tempo desde 2018 quando escrevi aqui uma despedida para meu pai. Acho que, no fim das contas, eu morri mesmo naquele 2018. Ter escrito uma despedida para a pessoa que mais me ama no mundo talvez tenha sido o mais perto que já consegui chegar de estar completamente vazia por dentro, ou talvez agora. Desde então, um relacionamento, uma pandemia, um fim de relacionamento, um trauma, um tumor e uma cirurgia. Um tratamento que tem drenado minha essência de dentro de mim, dia após dia. Acho que não preciso contextualizar muito, eu já reviso essa sequência de eventos o bastante para não me esquecer de nenhum detalhe, de nenhum lampejo de acontecimento, nenhuma fagulha de lembrança. Mas hoje, em específico, eu não consigo confiar na minha cabeça. É como se de repente toda e qualquer lucidez que eu tenho tentando manter por esses meses se desfizesse e eu não pudesse fazer nada. Não tem para onde correr, nem para quem correr. Tudo parece uma fuja, mas que não me carrega de onde eu menos quero estar: dentro de mim. Fico me perguntando se chegou naquele estado depressivo que eu já li algumas vezes, o tal do pior efeito colateral. Ou será que tudo isso sempre esteve dentro de mim esperando por uma brecha? A ferida de abandono, a desconfiança, a sede por um controle que eu não tenho e nem nunca vou ter. Parece um machucado que eu quero, a cada dia, curar, mas que se abre de repente e respinga sangue para todo lado... mas não era para estar tão vivo. No momento, escrevo porque me sinto sufocada. Porque acho que para conseguir esquecer, ou, para variar, dormir, preciso tirar de mim um pouco do peso. O peso de me sentir vazia, eis o paradoxo. Dentro desse vazio sentimentos muito confusos se emaranham: a vontade de ser amada, a rejeição, a insegurança, a impotência, a dor de um fim que nem aconteceu. Como se meu coração desabasse sobre todo o resto sufocando cada mísera parte que lutava para se manter saudável. Desde 2018 eu não pensava na morte como pensei hoje. Nunca cheguei tão perto de verbalizar que desejava muito não estar mais aqui, nã precisar sentir mais nada. Mas é também a ausência de sentimento que me faz querer desaparecer. Vou acender uma vela e orar para que esses sentimentos sejam carregados ou para que de manhã eu seja outra pessoa, ou não mais uma pessoa, o que é válido no momento quando não consigo colocar isso em melhores palavras.

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