Se eu morresse hoje…
Se
acontecesse nesse momento, eu saberia que o mundo me acolheu bem
independente do que eu já tenha dito sobre ele, e que o mundo não é
culpado por tudo o que já me machucou, mas sim outras pessoas que também
tentam culpá-lo. Eu saberia que ‘o mundo’ é a denominação mais fácil
para quem busca não aceitar que perdeu suas próprias oportunidades.
Se
eu moresse hoje, eu não teria medo de me jogar do precipício da minha
própria alma. Não hesitaria em levantar pela última vez e correr em meio
aos girassóis, não me perderia nas mágoas do meu ego, não caberia a mim
decidir e pensar no futuro, aguardaria o fim deitada sob uma velha
árvore e murmuraria palavras doces enquanto dentro de mim nossa música
me embalaria.
Se
hoje de fato fosse o dia, estaria certa de que mesmo sabendo que
pessoas me enganaram, tudo isso serviu para que me tornasse hoje a
pessoa que sou agora. Que mesmo com as pequenas e grandes mentiras, tudo
valeu a pena pelo aprendizado incrível que me foi oferecido, mesmo com a
dor da enganação. Saberia que cada lágrima derramada por causa dos
outros foram alguns milímetros de sentimento saindo de mim através dos
olhos, que cada noite fria com a cabeça girando constitui uma etapa
obrigatória no processo de me tornar o que sou nesse momento.
Se
acontecesse nesse segundo, gritaria alto o quanto me sinto bem por ter
experimentado as coisas mais lindas até então, o quanto eu sou grata por
cada pedra que eu pude retirar do meu caminho com as próprias mãos… por
ter conhecido um olhar sincero após um beijo, por poder dizer que tive
do meu lado pessoas mágicas, e outras nem tanto, que me ajudaram a
encontrar as peças perdidas dos meus quebra-cabeças. Eu levaria comigo
para sempre aquele cheiro de chuva, o perfume de pé de pitanga do
quintal, a lembrança dos anjos que passaram por mim e deixaram rastros
por todo meu ser.
Se
eu moresse hoje, não duvidaria das palavras de quem provava, a cada
dia, que valia a pena. Não aceitaria fácil a desistência, faria
inesquecível cada segundo de contemplação da vida, sem me perder nos
pensamentos pessimistas que costumavam impregnar minha mente. Renovaria
cada sorriso na presença daqueles que precisavam me ver sorrindo para
manter viva a chama da esperança.
Teria
mostrado par todos que era possível amar até mesmo aqueles que me
renderam choros de raiva, que era possível fazer da vida algo bem mais
amável. Em falar em amável…
Faria
as mais belas juras de amor em frente ao espelho para entender que é
impossível amar alguém sem se amar primeiro. Não sacrificaria meu
castelo de cartas do coração por caprichos de mulher, não teria dado a
cara à tapa sem saber o real motivo que me levava a fazer isso.
Esqueceria as dores de desilusão antes de dar minha mão a outra pessoa.
Esperaria o tempo necessário o som da voz de quem me fazia bem, porque a
maior prova de amor é doar seus dias a quem precisa de tempo.
Aproveitaria
as gotas do meu cabelo na chuva para lavar as feridas que nunca
cicatrizaram. Diria até o fim da minha voz que o amor que estava dentro
de mim não era o maior do mundo, mas o mais sincero, total entrega do
meu ser que eu desisti de censurar. Cantaria e dançaria ao som da nossa
música até meu corpo se sentir exausto demais, e deitar no chão sonhando
com a recompensa de um sentimento puro.
Deixaria
de lado minhas falhas humanas e buscaria virtudes divinas escondidas em
pontos remotos de mim só para te dar o meu melhor. Sacrificaria meu
corpo, minhas palavras, meus sentidos, para tentar te mostrar que ainda
vale a pena lutar pelo que é nosso que não há nada mais contraditório
que amar e não estar perto, sentir junto o que foi nos dado, não
desfrutar da essência se Deus em nós.
Diria,
incansavelmente, que o que eu queria, e sempre quis, desde o início,
era você ao meu lado mesmo que por alguns segundos, segundos de total
entrega de sentimentos, te queria comigo até quando seu corpo se
aventurava em outros corpos. Te diria, mesmo sem coragem, que estaria do
seu lado como um vento de lembrança, que te amaria mesmo quando
dissesse meu nome envolto em esquecimento e frieza.
Se
hoje fosse meu dia, entregaria minha a alma a todos que me dirigissem
olhares, e assim, eternizar meu ser em cada pessoa amada por mim em
vida. Abaixaria minha cabeça e esperaria, com calma e ligeira ansiedade
pelo momento em que a vista escurece e nada pode nos manter aqui.
Aguardaria, sem alarde, o mais puro sentido da morte, o estar morrendo.
Atenderia o chamado de Deus, e deixaria aqui a imagem de alguém que
amou, amou mais que tudo a vida, alguém que partiria com dúvidas, mas
com a certeza de que cada suspiro valeu a pena e que a coisa mais
incrível que poderia ter ocorrido na minha existência toda, foi perceber
que até as dores, as piores dores, trazem consigo uma carga de
benfeitorias para aquele as enfrenta de cabeça erguida.
Se
eu moresse hoje… Eu seria um vento de lembrança. O vento de lembrança
que se renova a cada noite em claro. Um vento de lembrança e esperança.
Se eu moresse hoje.

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