Todo mundo um dia vai escrever sobre branco. O branco que dá quando
não há mais nada para escrever…quando o que resta é suspirar e olhar
para a tela roxa sem conseguir colocar nada de criativo para fora. Todo
mundo um dia vai pensar branco. Algumas pessoas só pensam branco. E
agora eu agradeço por pensar colorido ou em escala de cinza a maior
parte do mundo.
Eu poderia escrever sobre muita coisa, o universo de assuntos que
eu gosto de falar é muito amplo, mas provavelmente não interessaria
tanto quanto as crises de desconfiança e incredulidade na existência de
algumas coisas… ou interessaria?! Parece-me que se eu escrever sobre
minhas dúvidas freqüentes e minha vontade constante de desaparecer do
mapa só faz com que as dúvidas se multipliquem e a vontade de sumir… nem
se fala.
Acho fácil também discutir por páginas e páginas daqui sobre a
futilidade das pessoas, sobre essa mania ridícula de colocar o material
sempre a frente do sentimental, sobre essa busca infinita por um poder
que não traz poder nenhum. Falar sobre os cegos desse mundo, aqueles
cegos de alma, os cegos que podem mas não enxergam.
É fácil escolher um tema e fazer um conto de fadas, um drama que
faça quem lê se emocionar… mas eu nunca vi alguém escrever um romance
sem nunca ter tido contato com alguma forma de amor, do mesmo modo que
ninguém faz um documentário sem uma pesquisa de campo. Não, isso não é
um momento "não posso falar de amor porque não o sinto, coiada de mim",
longe disso, é um tipo de explicação fria e seca do porque escrever tem
sido tão difícil. O como é tão complicado fazer alguém pensar em algo se
eu mesma estou com a cabeça tão fazia… tão branca.
Quem sabe daqui um dia, dois dias, algumas semanas, eu pense em
algo digno de ser escrito e principalmente digno de ser lido, ninguém
permanece tanto tempo sem impulsos de fazer aquilo que gosta. Ou
permanece? Quem sabe um dia eu esteja aqui escrevendo tanto, sendo capaz
de cansar quem lê com histórias mirabolantes e aventuras incríveis.
Quem sabe minha pesquisa de campo esteja mais próxima do que eu imagino e
quem sabe ainda algo de muito grandioso esteja para acontecer que eu
tenha que guardar minhas melhores palavras para descrever algo que está
por vir. Quem sabe eu não tenha como escrever… Ninguém sabe.
Por enquanto minha escala cinza da vida não tem distraído uns
minutos de alguém e meus momentos coloridos são de tal raridade que
quando é anunciando já há uma outra luz mais forte ofuscando a minha.
Mas também pode ser que em meio a tantas pessoas que copiam o colorido
de alguém, ou a minha escala em cinza seja o diferencial que eu preciso
para me ver…um ponto branco diante do espelho. Talvez as dúvidas se
multipliquem ou sejam divididas, mas isso só o tempo dirá. O tempo e a
minha vontade de encontrar respostas, ou a minha vontade de sumir me
leve para onde eu sempre quis estar e sem o menos sacrifício eu ainda
diga que sumir é o mesmo que dormir sem poder acordar nunca.

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