terça-feira, 29 de maio de 2012

bege, margaridas no cabelo.

Entrei no carro e novamente você não disse nada, só me olhou com aqueles olhos curiosos de quem espera alguma palavra. Olhei para você e você olhava para mim. Momento perfeito, romântico. Não.
Vou dizendo desde o início que tenho em meu poder um copo e que não estou muito preocupada com o fato de que logo seu conteúdo pode estar inteiro virado em sua roupa. Para ser bem sincera, eu adoraria isso. Agora, me sinto em uma música da Amy Winehouse em sua relação conturbada com os homens, quem sabe eu possa te explicar como é se sentir assim.
Me peguei ontem vendo as fotos de quando éramos apenas aqueles loucos que não queriam nada mais que diversão. Logo, é inevitável, eu me pergunto: Porque você se tornou isso, tão diferente? Você não é mais aquele cara com quem eu brindo a vida. Você não é mais aquele que me deseja até quando falo alto e ri dos meus escândalos. Será que nós caímos na rotina? Depois das fotos, estava chorando no chão da cozinha de saudade de você, mesmo estando na sua frente agora, eu sinto saudade de você.
Você se lembra de quando nós combinamos de nos casar, só você aceitaria eternamente os risos fora de hora, altas doses vida injetáveis em sua veia, noitadas nas ruas da cidade. Hoje te vejo me recriminando e aquele bar velho onde você me conheceu dançando como louca não é mais ambiente para mim, concorda querido?
Não há mais ninguém entre a gente. Seu apartamento é em frente ao meu e eu não consigo mais apertar a campainha e não te ver como uma freira querendo me converter a todo o momento. Quem sabe se você não disesse a todo momento que eu sou alguém diferente do que você conheceu?! Será que você está crescendo e não me quer mais como eu era antes? Eu te vejo careta mesmo com suas camisetas modernas.
Ainda estava chorando na cozinha por alguém que estava me repugnando até então quando parei para pensar no quanto essa cena estava deprimente, que tudo gira em torno do meu umbigo e que ninguém, muito menos ele, poderia me fazer chorar no chão da cozinha. Tão deprimente. Deitada ali, encontrei embaixo do fogão as chaves no apartamento da frente, que na nossa última briga, foi lançada aos ares e eu nunca mais encontrara.
Com as chaves e um lingerie nova, fui a sua casa decidida a te fazer voltar ao normal. O que estava acontecendo? Confesso que prefiro roupas íntimas mais confortáveis, mas o que não se faz por um amor?
Nada na sala, nada na cozinha, nada no quarto, nada no banheiro. Onde estava? Rua? Bar? Não, você agora é um santo.
Sua condição faz a minha, não estou nessa com você. Nós nos casaríamos, mas acho que não quero mais dividir o mesmo teto com alguém que a qualquer momento me exorcizaria com o olhar. Sempre foi minha a última palavra. Como eu nunca percebi que você não passava de um boneco manipulável que estava empolgado com a minha vida de aventuras, na qual você cansou de se arriscar?!
Na rua, qualquer mulher encontra inúmeras possibilidades para um fim de noite, eu estava um pouco desconfortável, mas o que é o desconforto perto daquele misto de querer e não querer saber onde você estava? Ninguém some nessa cidade, a menos que se queira. Você ainda é o tipo de cara que gosta de sumir?
Mais um copo e você novamente me encontra do jeito que nós nos conhecemos, como uma louca, rindo e falando besteiras. Mas seu olhar é outro, não vejo um interesse mas um olhar de pena. Você realmente está se sentindo bem com isso.
Você sumiu de novo.
Sumiu, de vista e de dentro de mim. O que está acontecendo?
O que se passou depois eu já não lembro direito. Mas eu sei que não foi uma idéia fácil de colocar na cabeça que você estava sentado do lado de alguém que deveria ser eu. O que você consegue ver em alguém como ela? É divertido passar noites me claro falando do novo emprego dela enquanto eu jogo sobre você os olhares você costumava dizer que eram irresistíveis?
Eu ainda estou com a minha nova lingerie e estou vendo o quanto o banco do seu carro é macio, ela está com uma lingerie nova também? Foi ela quem te converteu?
Eu ainda tenho um copo na minha mão, e você continua me olhando com aquele olhar de quem não entende nada. Você nunca entendeu nada.
Não responde nada do que eu pergunto. Bom, é melhor entregar as chaves do seu apartamento, não quero encontrá-las embaixo o meu fogão quando estiver deitada pensando no quanto você é tolo.
Eu beberia agora, o resto do meu sagrado líquido do meu copo se ninguém tivesse batido no vidro do carro. Abri o vidro.
Sem decotes, sem salto, sem cabelo arrumado, sem maquiagem, sem nada. É ela?
‘Quem é ela?’
Sem tempo de responder. Meio que com uma idéia de fazer parecer um acidente, meu copo voou na blusinha branca da ‘moça’ que ficou lavada.
Como eu imaginava, com a transparência da blusa, só pude ver um grande sutiã bege sem atrativos. Como se não bastasse, recebi um olhar fulminante, mas desculpa amiga, você não vai conseguir fazer comigo o que fez com aquele que eu achava que me amava e que talvez não guarde mais as cópias das fotos que ainda estão no chão da cozinha.
A propósito, tire da sua carteira a imagem de nós dois. Substitua pelo seu novo amor com margaridas no cabelo.

Nenhum comentário: