Entrei
no carro e novamente você não disse nada, só me olhou com aqueles olhos
curiosos de quem espera alguma palavra. Olhei para você e você olhava
para mim. Momento perfeito, romântico. Não.
Vou
dizendo desde o início que tenho em meu poder um copo e que não estou
muito preocupada com o fato de que logo seu conteúdo pode estar inteiro
virado em sua roupa. Para ser bem sincera, eu adoraria isso. Agora, me
sinto em uma música da Amy Winehouse em sua relação conturbada com os
homens, quem sabe eu possa te explicar como é se sentir assim.
Me
peguei ontem vendo as fotos de quando éramos apenas aqueles loucos que
não queriam nada mais que diversão. Logo, é inevitável, eu me pergunto:
Porque você se tornou isso, tão diferente? Você não é mais aquele cara
com quem eu brindo a vida. Você não é mais aquele que me deseja até
quando falo alto e ri dos meus escândalos. Será que nós caímos na
rotina? Depois das fotos, estava chorando no chão da cozinha de saudade
de você, mesmo estando na sua frente agora, eu sinto saudade de você.
Você
se lembra de quando nós combinamos de nos casar, só você aceitaria
eternamente os risos fora de hora, altas doses vida injetáveis em sua
veia, noitadas nas ruas da cidade. Hoje te vejo me recriminando e aquele
bar velho onde você me conheceu dançando como louca não é mais ambiente
para mim, concorda querido?
Não
há mais ninguém entre a gente. Seu apartamento é em frente ao meu e eu
não consigo mais apertar a campainha e não te ver como uma freira
querendo me converter a todo o momento. Quem sabe se você não disesse a
todo momento que eu sou alguém diferente do que você conheceu?! Será que
você está crescendo e não me quer mais como eu era antes? Eu te vejo
careta mesmo com suas camisetas modernas.
Ainda
estava chorando na cozinha por alguém que estava me repugnando até
então quando parei para pensar no quanto essa cena estava deprimente,
que tudo gira em torno do meu umbigo e que ninguém, muito menos ele,
poderia me fazer chorar no chão da cozinha. Tão deprimente. Deitada ali,
encontrei embaixo do fogão as chaves no apartamento da frente, que na
nossa última briga, foi lançada aos ares e eu nunca mais encontrara.
Com
as chaves e um lingerie nova, fui a sua casa decidida a te fazer voltar
ao normal. O que estava acontecendo? Confesso que prefiro roupas
íntimas mais confortáveis, mas o que não se faz por um amor?
Nada na sala, nada na cozinha, nada no quarto, nada no banheiro. Onde estava? Rua? Bar? Não, você agora é um santo.
Sua
condição faz a minha, não estou nessa com você. Nós nos casaríamos, mas
acho que não quero mais dividir o mesmo teto com alguém que a qualquer
momento me exorcizaria com o olhar. Sempre foi minha a última palavra.
Como eu nunca percebi que você não passava de um boneco manipulável que
estava empolgado com a minha vida de aventuras, na qual você cansou de
se arriscar?!
Na
rua, qualquer mulher encontra inúmeras possibilidades para um fim de
noite, eu estava um pouco desconfortável, mas o que é o desconforto
perto daquele misto de querer e não querer saber onde você estava?
Ninguém some nessa cidade, a menos que se queira. Você ainda é o tipo de
cara que gosta de sumir?
Mais
um copo e você novamente me encontra do jeito que nós nos conhecemos,
como uma louca, rindo e falando besteiras. Mas seu olhar é outro, não
vejo um interesse mas um olhar de pena. Você realmente está se sentindo
bem com isso.
Você sumiu de novo.
Sumiu, de vista e de dentro de mim. O que está acontecendo?
O
que se passou depois eu já não lembro direito. Mas eu sei que não foi
uma idéia fácil de colocar na cabeça que você estava sentado do lado de
alguém que deveria ser eu. O que você consegue ver em alguém como ela? É
divertido passar noites me claro falando do novo emprego dela enquanto
eu jogo sobre você os olhares você costumava dizer que eram
irresistíveis?
Eu
ainda estou com a minha nova lingerie e estou vendo o quanto o banco do
seu carro é macio, ela está com uma lingerie nova também? Foi ela quem
te converteu?
Eu
ainda tenho um copo na minha mão, e você continua me olhando com aquele
olhar de quem não entende nada. Você nunca entendeu nada.
Não responde
nada do que eu pergunto. Bom, é melhor entregar as chaves do seu
apartamento, não quero encontrá-las embaixo o meu fogão quando estiver
deitada pensando no quanto você é tolo.
Eu beberia agora, o resto do meu sagrado líquido do meu copo se ninguém tivesse batido no vidro do carro. Abri o vidro.
Sem decotes, sem salto, sem cabelo arrumado, sem maquiagem, sem nada. É ela?
‘Quem é ela?’
Sem
tempo de responder. Meio que com uma idéia de fazer parecer um
acidente, meu copo voou na blusinha branca da ‘moça’ que ficou lavada.
Como
eu imaginava, com a transparência da blusa, só pude ver um grande sutiã
bege sem atrativos. Como se não bastasse, recebi um olhar fulminante,
mas desculpa amiga, você não vai conseguir fazer comigo o que fez com
aquele que eu achava que me amava e que talvez não guarde mais as cópias
das fotos que ainda estão no chão da cozinha.
A propósito, tire da sua carteira a imagem de nós dois. Substitua pelo seu novo amor com margaridas no cabelo.

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