terça-feira, 29 de maio de 2012

E então... Amar.

Hoje quando estava entediada olhando ao meu redor e pensando na corda bamba na qual eu me encontro, percebi algo que não via nas outras pessoas.
O pássaro bicolor que pousou no meu ombro talvez seja o sinal que alguém enviou para que eu soubesse que eu fui a escolhida. Bem, não há mais ninguém com esse mesmo pássaro pesado e barulhento por aqui, talvez eu devesse me desvencilhar dele, estou tombando para o lado e isso pode me fazer cair. Mas esse pássaro é meu sinal, é uma marca, para que Aquele, quem sabe, possa chegar a vir de repente e buscar a pessoa escolhida. Eu fui a escolhida, estou aqui! Veja meu pássaro!
Coincidentemente, no mesmo dia que me dei conta do enorme peso que essa ave maldita exercia no meu ombro, também percebi que havia caído um cadeado do meu colar. O colar que eu usava para simbolizar que duas almas totalmente distintas poderiam estar ligadas a uma mesma chave, mas depois que eu acordei de um sonho lindo, procurei, freneticamente, o cadeado perdido. Não encontrei. Isso me sugere que o cadeado sumiu por ter encontrado uma outra chave, a chave que o abria mais facilmente que a que tinha. Continuo com o colar. Com a chave. Com o cadeado. Um só cadeado, um cadeado solitário.
Se eu olhar para cima, além de perder o equilíbrio, eu sei que vou ver o enorme número de estrelas que eu já desisti de contar, e tenho certeza que não encontrarei minhas respostas apenas pelo ato de tombar a minha cabeça e sentir meu sangue se concentrar todo me fazendo ficar vermelha. A vermelhidão do meu rosto pode dizer tantas coisas, é algo tão raro, que eu não estou disposta a ficar vermelha por um motivo tão banal a ponto de acabar com a magia da face corada, tão misteriosa. Não olharei para o céu, já sei o que existe lá, talvez eu me sinta triste ao ver o que vejo todas as noites, exatamente igual.
Agora então me ocorreu a idéia de ao invés de olhar para cima, olhar para baixo. Abaixo de mim há uma corda, uma corda marcada por quatro linhas amarelas, como se indicassem a porcentagem da corda que eu já consegui passar, só para constar, acabo de verificar e não cheguei aos vinte e cinco ainda, há muito caminho pela frente. Mas novamente eu digo, não olharei, é certo demais o que está abaixo de mim, eu sei que nem um milagre faria que a imensidão dos espinhos da roseira se transformasse em uma cama limpa com pétalas de rosa para que minha queda fosse bela ao invés de trágica, assim como só um milagre faria com que, ao olhar para o peito, eu encontrasse ali, preso e seguro o cadeado perdido do meu colar da vida, o cadeado que acabaria com a solidão da chave que não consegue viver para um só. É melhor não olhar.
Do meu lado esquerdo há o pássaro. Meu sinal. Minha marca. E eu espero ansiosamente o dia em que Ele chegará, procurará atenciosamente por toda a sala e verá o pássaro, esplendoroso a fazer barulho, indicando sua presença em meu ombro machucado. Então Ele virá ao meu encontro e dirá com palavras doces ”É você, não poderia ser outra, venha comigo e desfrute de sua recompensa por suportar a dor do pássaro” e eu me levantarei, mas logo deitarei, deixando a matéria morta no chão e receberei, enfim, a luz prometida. Pode ser que junto com as palavras doces, Ele traga ainda não meu cadeado perdido, mas um molho de chaves e entregue em minhas mãos, me dando a responsabilidade de abrir todos os cadeados do mundo, libertar todo o amor possível. Viver trabalhando com o amor, viver em meio a amor. Amar.
Nesse dia, eu não estarei mais na corda bamba, poderei olhar para todas as direções possíveis. Estarei bem. O pássaro seguirá seu rumo a procura de um novo pouso, e nada mais será um peso. Meus cadeados estarão perdidos, sim, mas em troca, todas as chaves em minhas mãos. E então… Amar.

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