Hoje
quando estava entediada olhando ao meu redor e pensando na corda bamba
na qual eu me encontro, percebi algo que não via nas outras pessoas.
O
pássaro bicolor que pousou no meu ombro talvez seja o sinal que alguém
enviou para que eu soubesse que eu fui a escolhida. Bem, não há mais
ninguém com esse mesmo pássaro pesado e barulhento por aqui, talvez eu
devesse me desvencilhar dele, estou tombando para o lado e isso pode me
fazer cair. Mas esse pássaro é meu sinal, é uma marca, para que Aquele,
quem sabe, possa chegar a vir de repente e buscar a pessoa escolhida. Eu
fui a escolhida, estou aqui! Veja meu pássaro!
Coincidentemente,
no mesmo dia que me dei conta do enorme peso que essa ave maldita
exercia no meu ombro, também percebi que havia caído um cadeado do meu
colar. O colar que eu usava para simbolizar que duas almas totalmente
distintas poderiam estar ligadas a uma mesma chave, mas depois que eu
acordei de um sonho lindo, procurei, freneticamente, o cadeado perdido.
Não encontrei. Isso me sugere que o cadeado sumiu por ter encontrado uma
outra chave, a chave que o abria mais facilmente que a que tinha.
Continuo com o colar. Com a chave. Com o cadeado. Um só cadeado, um
cadeado solitário.
Se
eu olhar para cima, além de perder o equilíbrio, eu sei que vou ver o
enorme número de estrelas que eu já desisti de contar, e tenho certeza
que não encontrarei minhas respostas apenas pelo ato de tombar a minha
cabeça e sentir meu sangue se concentrar todo me fazendo ficar vermelha.
A vermelhidão do meu rosto pode dizer tantas coisas, é algo tão raro,
que eu não estou disposta a ficar vermelha por um motivo tão banal a
ponto de acabar com a magia da face corada, tão misteriosa. Não olharei
para o céu, já sei o que existe lá, talvez eu me sinta triste ao ver o
que vejo todas as noites, exatamente igual.
Agora
então me ocorreu a idéia de ao invés de olhar para cima, olhar para
baixo. Abaixo de mim há uma corda, uma corda marcada por quatro linhas
amarelas, como se indicassem a porcentagem da corda que eu já consegui
passar, só para constar, acabo de verificar e não cheguei aos vinte e
cinco ainda, há muito caminho pela frente. Mas novamente eu digo, não
olharei, é certo demais o que está abaixo de mim, eu sei que nem um
milagre faria que a imensidão dos espinhos da roseira se transformasse
em uma cama limpa com pétalas de rosa para que minha queda fosse bela ao
invés de trágica, assim como só um milagre faria com que, ao olhar para
o peito, eu encontrasse ali, preso e seguro o cadeado perdido do meu
colar da vida, o cadeado que acabaria com a solidão da chave que não
consegue viver para um só. É melhor não olhar.
Do
meu lado esquerdo há o pássaro. Meu sinal. Minha marca. E eu espero
ansiosamente o dia em que Ele chegará, procurará atenciosamente por toda
a sala e verá o pássaro, esplendoroso a fazer barulho, indicando sua
presença em meu ombro machucado. Então Ele virá ao meu encontro e dirá
com palavras doces ”É você, não poderia ser outra, venha comigo e
desfrute de sua recompensa por suportar a dor do pássaro” e eu me
levantarei, mas logo deitarei, deixando a matéria morta no chão e
receberei, enfim, a luz prometida. Pode ser que junto com as palavras
doces, Ele traga ainda não meu cadeado perdido, mas um molho de chaves e
entregue em minhas mãos, me dando a responsabilidade de abrir todos os
cadeados do mundo, libertar todo o amor possível. Viver trabalhando com o
amor, viver em meio a amor. Amar.
Nesse
dia, eu não estarei mais na corda bamba, poderei olhar para todas as
direções possíveis. Estarei bem. O pássaro seguirá seu rumo a procura de
um novo pouso, e nada mais será um peso. Meus cadeados estarão
perdidos, sim, mas em troca, todas as chaves em minhas mãos. E então…
Amar.

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